Alex Vallauri: São Paulo e Nova York como suporte 16 ABR - 23 JUN, 2013


Curadoria: João Spinelli
Grande Sala

Com vivacidade, humor e alegria, Alex Vallauri acrescentou formas, cores e imagens inovadoras, que revolucionaram a maneira de se ver e de se fazer arte no Brasil, aos valores estéticos convencionais do desenho, da gravura e da pintura.

O artista percebeu que a obra de arte só poderia ser realmente entendida se o autor se preocupasse também com os anseios e as aspirações das pessoas. Por isso substituiu as técnicas gráficas tradicionais, executadas entre as quatro paredes de seu ateliê, por grandes matrizes que estampava à surdina nos muros e paredes da cidade; criou, assim, signos imediatamente identificados, amados pela multidão anônima que diariamente passava por aqueles lugares. Uma atitude corajosa de um audacioso artista que, desvinculado de falsas vanguardas, almejava a comunicação e a fruição estética: apenas arte, por meio da qual o humor, a ironia, a crítica e o prazer de viver eram magistralmente transmitidos para a população.

Depois de uma fase inicial expressionista, Alex Vallauri encontra na pop art a sua principal inspiração. No final dos anos 1970, o kitsch, símbolo estandardizado da indústria de sonhos típica das grandes cidades, disseminado em São Paulo, Nova York, Chicago e nas principais metrópoles, foi percebido e anexado ludicamente em suas obras. Um jogo no qual a fantasia se misturava com a realidade confusa do cotidiano: uma reinvenção pessoal de Alex Vallauri da pop art nos trópicos…

Em 1978, o artista dá início à sua faceta mais conhecida, a de grafiteiro. Assim a sua Bota preta inicia seu percurso em São Paulo. No começo, timidamente, para em seguida, num voo mais amplo, chegar aos Estados Unidos e se transformar em cartão postal de Nova York.

Da mesma forma que os artistas da pop art Andy Warhol, Claes Oldenburg, Tom Wesselmann, Jasper Johns, Robert Rauschenberg, Roy Lichtenstein, James Rosenquist e George Segal, entre outros, que acreditavam que os objetos e materiais funcionavam como coautores da obra, Vallauri confirmou essa nova maneira de fazer arte ao idealizar a instalação A festa na casa da Rainha do Frango Assado para a 18ª Bienal Internacional de São Paulo. Os objetos da obra expressam intrinsecamente o essencial, instalam uma certa verdade inalcançável à arte por outros meios, testam os limites sacralizados da pintura – mais uma tradução particular, convincente e arrojada deste artista para a pop art latino-americana.

Uma cosmogonia visual que ampliava as discussões sobre a própria criação artística e cuja meta era alcançar um diálogo singular com diferentes técnicas, objetos e/ou materiais.

Assim como os artistas da arte pop almejaram transformar suas obras em múltiplos assinados e numerados para a democratização e o acesso de um número maior de usufruidores/colecionadores, Alex Vallauri, também conseguiu, em parte, popularizar suas criações no Brasil. Elas foram instaladas primeiro nos muros e nas paredes de São Paulo, e posteriormente em Nova York, onde se transformaram em cartões-postais. Por serem diferenciados, foram impressos como símbolos vivos de Nova York. Seus grafites coloridos, diversificados e instalados em pontos incomuns daquela cidade – Soho, Greenwich Village e até na Broadway – foram depois registrados fotograficamente pelo próprio Vallauri, que os transformou em uma edição limitada de fotocópias coloridas, assinadas e datadas pelo autor e agora apresentados nesta exposição.

Desenhista, gravador, pintor e designer, Alex Vallauri foi respeitado em todas as suas atividades artísticas. Apenas o sucesso comercial lhe foi negado, o que jamais o impediu de continuar a criar arte – apenas arte, na qual o humor, a ironia, a crítica e o prazer de viver eram passados para a população sem retoques ou arrependimentos. Um artista transformador, perfeitamente engajado no seu tempo e no seu espaço. Uma carreira desenvolvida num curto intervalo cronológico: entre 1967 e 1987.

Ele intuitivamente pressentiu essa brevidade temporal. Tinha pressa de entender, captar e vivenciar o pouco tempo que a vida lhe destinara; pesquisava e produzia sem parar, nunca se acomodava. Ele queria mais, precisava de mais. O tempo foi demasiadamente curto para uma produção artística tão farta e boa.

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