Rivane Neuenschwander: mal-entendidos 01 set – 14 dez 2014


mal-entendidos é a primeira exposição panorâmica no Brasil de Rivane Neuenschwander (Belo Horizonte, 1967), uma das principais figuras da geração dos anos 1990. A exposição reúne 24 trabalhos e séries feitos desde 1999. O título da mostra aponta os caminhos da exposição. O pequeno Mal-entendido consiste num ovo meio submerso num copo d’água, de maneira que sua parte inferior aparece ampliada pelo vidro que, com o líquido, funciona como uma lente de aumento. O que vemos é a imagem de um ovo fraturada, dupla e desencontrada. Não se trata tanto de um truque ótico, mas de uma demonstração de que mesmo materiais aparentemente transparentes como o vidro e a água podem distorcer nossa boa percepção da realidade. A pergunta é: existe, de fato, uma boa percepção e representação da realidade? Essa é a indagação central de boa parte da arte e da ciência, e atravessa campos como a filosofia, a história, a antropologia, a psicanálise, a linguística, a semiótica, a fotografia. Colocado no plural e em minúsculas, o Mal-entendido entre o ovo, o vidro, a água e o olho humano encobre a exposição como uma névoa, e nos faz refletir sobre o estatuto daquilo que vemos.

 

alfabeto

Foto: Eduardo Ortega

A primeira sala é um princípio eloquente: palavras cruzadas com letras esculpidas em laranjas e limões organizadas em arquiteturas labirínticas (Palavras cruzadas/jornal) encontram-se com alfabetos comestíveis compostos em diagramas horizontais, com 26 condimentos e comidas em pó (Alfabeto comestível), e diante de desenhos feitos com máquinas de escrever alteradas de modo a datilografarem apenas números e pontuações (Sanos e alterados). Tudo parece emergir de uma crise da representação e seus códigos, da linguagem e seus alfabetos, e de um desejo de desenvolver alternativas que, ainda que não descartem a grade (seja ela geométrica, arquitetônica, científica ou linguística), passem também pelo erro, o orgânico, o acaso, o afeto, a vida.

 

lesmas

Foto: Eduardo Ortega

 

A participação do outro—seja o público visitante, um funcionário do museu, ou autores de obras que são incorporados à exposição—é fundamental e traz a dimensão do afeto. As Esculturas involuntárias (atos de fala), as listas de supermercado (em Colheita), os desenhos de máquina de escrever (em Sanos e alterados) e as memórias do Primeiro amor foram dadas ou coletadas pela artista, que agora convida o público a participar da sequência do Primeiro amor, a jogar com Palavras cruzadas/jornal, a disparar sons pisando sobre Quem vem lá sou eu/Alarm-Floor e, por fim, a levar e talvez cuidar da moeda de sal prensado em Monstra Marina.

 

conversacao

Foto: Eduardo Ortega

À medida que se abrem os caminhos de leitura e participação, encontramos múltiplas possibilidades de acesso e de percepção—este é o rumo da exposição. Não há linguagem sem lapso, comunicação sem engano, alfabeto sem lacuna, teoria sem fantasia, memória sem esquecimento. Certamente outros mal-entendidos virão.

Adriano Pedrosa

 

Imagem cabeçalho: Rafael Roncato

 

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