
Cauê Alves curador-chefe, MAM São Paulo

O MAM Debate de 2025 acontece em um momento singular para o Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM São Paulo), que está temporariamente fechado devido à reforma da Marquise do Ibirapuera. Fora de sua sede, o museu vem desenvolvendo uma série de ações e mostras em parceria com diversas instituições, programa que denominamos MAM em movimento. Entre elas, está o 38º Panorama da Arte Brasileira, inaugurado em 2024 no Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo (MAC USP) – instituição historicamente ligada ao MAM, criada em 1963 a partir da doação de sua coleção inicial. O MAC USP também tem generosamente acolhido parte da equipe do MAM, enquanto o MAM Educativo colabora com uma variedade de atividades e ações de mediação cultural no museu anfitrião. A Fundação Bienal de São Paulo, que igualmente tem sua origem no MAM – responsável pelas suas seis primeiras edições – abrigou recentemente a loja e atualmente recebe outra parte da equipe do museu em sua sede.. Além disso, em julho passado, o MAM apresentou parte de sua coleção de vídeos na Cinemateca Brasileira, outra instituição com a qual compartilha uma história comum.
Fundada em 1956, a Cinemateca nasceu da Filmoteca do MAM São Paulo, que, desde 1949, reunia intelectuais, cineastas e artistas para assistir às projeções de filmes.
Nas comemorações de seu centenário, a Biblioteca Mário de Andrade (BMA), além de sediar o MAM Debate: a instituição do moderno, colaborou com a mostra Do livro ao museu, que reuniu as coleções do MAM e da BMA. Essa parceria também reflete antigas relações: Sérgio Milliet, diretor da Biblioteca entre 1943 e 1959, atuou na constituição do MAM e, como seu diretor artístico, organizou três Bienais de São Paulo (segunda, terceira e quarta), sendo a segunda edição apontada pela crítica como uma das melhores exposições do século XX. Ao lado de Maria Eugênio Franco, seu trabalho na Seção de Arte da Biblioteca, inaugurada em 1945, é o germe das discussões para a criação de uma coleção pública de arte moderna. Os desenhos, gravuras, pinturas e livros de artista colecionados pela BMA, junto às mostras didáticas organizadas com o objetivo de atualizar o repertório sobre as vanguardas artísticas europeias, contribuíram para a formação de diversos artistas e para a visibilidade da produção modernista.
Mais que compartilhar um intelectual como Sérgio Milliet, a Biblioteca e o Museu complementam-se na divulgação e institucionalização da arte moderna brasileira e internacional. Foi na Seção de Arte da então Biblioteca Municipal de São Paulo, atual Biblioteca Mário de Andrade, que foram expostas as obras modernistas doadas pelo empresário estadunidense Nelson Rockefeller como estímulo para a criação do MAM.
Já em 1938, dez anos antes da fundação do museu, Sérgio Milliet publicou um texto no jornal O Estado de São Paulo,1 no qual lamentava a falta de um museu de arte moderna na capital paulista e, ao mesmo tempo, apontava a necessidade de sua criação.
A mostra Do livro ao museu, em cartaz durante o MAM Debate 2025, é composta, em sua maioria, por obras das décadas de 1940 e 1950, período de sedimentação da arte moderna e de espaços dedicados a ela. A exposição apresenta uma seleção criteriosa de livros modernos da coleção da BMA, bem como obras do MAM São Paulo que remetem às tensões da produção moderna brasileira, que naquele período entrou em uma intensa disputa entre abstração e figuração. Em 1949, essa discussão esteve presente na mostra inaugural do museu, Do figurativismo ao abstracionismo, em sua então sede vizinha da Biblioteca, na Rua 7 de Abril, número 230.
Sérgio Milliet, que sucedeu a Rubens Borba de Moraes na direção da Biblioteca e inspirou essa edição do MAM Debate, está presente na mostra com duas pinturas de sua autoria, e tem sua atuação como ponto de partida para o desenho e organização do encontro. O intelectual – que já havia participado como poeta da Semana de Arte Moderna de 1922 e, como crítico, se posicionava a favor da experimentação livre da linguagem artística moderna – é o ponto de ligação entre diferentes gerações de modernistas. Milliet participou dos primeiros eventos de arte moderna na capital até a consolidação de instituições voltadas para ela, como o MAM e a Bienal de São Paulo.
Tanto o Museu quanto a Biblioteca compartilham origens comuns: ambos foram marcados por ideários que não apenas moldaram suas trajetórias, mas consolidaram esses espaços como centros de difusão da arte moderna. Desde a sua origem, as instituições realizaram mostras, debates e ações educativas que contribuíram para a aproximação de novos públicos com a produção artística moderna, visando a democratização da arte. Rever a história da institucionalização do modernismo é, também, uma oportunidade de refletir sobre os imaginários que caracterizaram seus protagonistas, assim como sobre as obras realizadas nas décadas de 1940 e 1950, período de intensas transformações que impulsionaram a arte moderna a se tornar patrimônio público e coletivo.
O presente debate, realizado no auditório da BMA, busca promover uma troca de ideias tanto sobre o papel de críticos e artistas quanto sobre o de instituições na consolidação e difusão da arte moderna, conectando passado, presente e abrindo caminhos para novas compreensões da produção artística moderna. Embora a biblioteca e o museu tenham funções diferentes, historicamente nasceram juntos, compartilhando a missão de preservar, organizar e mediar conhecimentos. Ambos são mais que guardiões do patrimônio material e imaterial: são espaços de encontro e aprendizado, estimulando a pesquisa, a reflexão e a imaginação.
Em sua quarta edição, o MAM Debate: a instituição do moderno tem como objetivo discutir o processo de institucionalização do modernismo em torno da metade do século XX, que é marcado pela conformação das primeiras coleções públicas de arte moderna em São Paulo. A reavaliação desse passado nos permite enxergar as permanências e reelaborar as ações de idealizadores e produtores da narrativa modernista. Assim, também permite compreendermos a circulação, a recepção e a legitimação da arte moderna, situando-as em uma perspectiva crítica e contemporânea, já que o museu de arte é parte importante dessa escrita da história.
A programação do MAM Debate reúne convidados de diferentes áreas da crítica, da curadoria e da pesquisa acadêmica, para trazer à tona elementos centrais para o debate sobre o modernismo artístico no Brasil, em diálogo com a memória e a atuação do MAM. O encontro foi estruturado em duas mesas de discussão, realizadas ao longo da tarde.
A primeira mesa, intitulada Personagens e histórias entre o MAM e a Biblioteca Mário de Andrade, propôs revisitar e discutir o papel de figuras centrais na institucionalização do modernismo em São Paulo, a partir das articulações entre ambas as instituições nas décadas de 1940 e 1950. Ao destacar a atuação de diretores, críticos e organizadores de acervos, assim como acontecimentos de seus entornos, buscouse compreender como decisões individuais e contextos especiais contribuíram para a formação de coleções públicas e para a definição de um imaginário moderno. Além de figuras como Sérgio Milliet, que articulou políticas de aquisição e difusão da arte moderna, sobressai nesse contexto a atuação de Maria Eugênia Franco, responsável pela Seção de Arte da Biblioteca e por iniciativas pioneiras de exposição e documentação. Episódios como a realização de mostras didáticas, a circulação de exposições internacionais em São Paulo e a incorporação de fotografias e livros de arte em coleções institucionais evidenciam o entrelaçamento entre práticas curatoriais e biblioteconômicas na construção de uma história da arte moderna, permitindo discutir permanências, disputas e legados ainda presentes.
Já a segunda mesa, denominada Circulação da arte moderna, abordou os fluxos de obras, ideias e narrativas que conformaram o modernismo entre o Brasil e o exterior, examinando as redes institucionais responsáveis por sua difusão nas décadas de 1940 e 1950. Ao considerar desde a entrada de álbuns de importantes artistas do modernismo europeu em bibliotecas nacionais como a BMA até a projeção internacional da produção brasileira, a mesa discutiu como a arte moderna foi apresentada, interpretada e absorvida em diferentes territórios e contextos culturais. A análise desses regimes de circulação revela tanto a formação de um repertório cosmopolita quanto a construção de um cânone marcado, por exemplo, pela presença rarefeita de minorias sociopolíticas e mulheres artistas nas coleções emergentes. Nesse percurso, buscou-se tensionar os mecanismos de legitimação, participação e exclusão que atravessaram a institucionalização da modernidade artística no país.
Nesta edição do MAM Debate, foi central a noção de instituição – uma entidade concreta que tem o poder de institucionalizar algo, no sentido de formalizar e estruturar ações. Entretanto, mais do que institucionalizar, o MAM e a BMA exerceram ações instituintes, ou seja, foram além do que já estava instituído e sedimentado. As decisões tomadas por essas instituições e pelos artistas e críticos da época abriram uma série de possibilidades, de sentidos e de compreensões que, por sua vez, estão sempre inacabados, já que nunca devem deixar de ser revistos e debatidos. É o que esse evento propôs; e, certamente, ele contribuiu para a instituição de outras formas de perceber e compreender o surgimento, o desenvolvimento e a consolidação do modernismo.
1 MILLIET, Sérgio. “Pintura moderna”. O Estado de São Paulo, São Paulo, 22 jul. 1938.

Lisbeth Rebollo Gonçalves curadora e professora emérita, PROLAM USP.

No começo da década de 1930, Milliet integra o grupo que idealiza o Departamento de Cultura, que vem a ser a semente da futura Secretaria de Cultura do Município de São Paulo. Desse grupo, fazem parte Paulo Duarte, Mário de Andrade, Antônio Carlos Couto de Barros, Rubens Borba de Morais e Tácito de Almeida, entre outros.
Inicialmente, Sérgio Milliet tem a missão de dirigir a Divisão de Documentação Histórica e Social do Departamento de Cultura, que é criado em 1935 e incorpora a Biblioteca Municipal. Nessa Divisão, ele foi responsável, por exemplo, pelo apoio às expedições de pesquisa de Lévi-Strauss entre os Bororo e por promover, igualmente, várias pesquisas de perfil socioeconômico, com a participação de professores da Escola de Sociologia e Política e de alunos da Faculdade de Direito do Largo São Francisco.
Outro fato relevante da Divisão é a Revista do Arquivo que, por ação de Milliet, deixa de ser um espaço de registro burocrático para tornar-se uma revista aberta à informação sobre cultura, onde se publicam textos sobre arte, como A pintura moderna, de Jean Maugüé, e Pintura e mística, de Roger Bastide, ambos professores franceses que vieram ao Brasil para lecionar na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) – recém-criada em 1934 e na qual, em seu início, Milliet promove o contato entre o meio artístico e os mestres europeus que vieram a São Paulo.
Vem depois dessa experiência o momento significativo que nos interessa destacar: o da contribuição de Sérgio Milliet à frente da direção da Biblioteca Municipal, transformada em um espaço de fundamental importância para a cultura paulistana e brasileira.
Com a mudança de prefeito (saída de Fábio Prado e posse de Prestes Maia), Sérgio Milliet é transferido, em 1942, para a Divisão de Bibliotecas. Torna-se então o diretor da Biblioteca Pública Municipal, hoje chamada de Biblioteca Mário de Andrade. O prédio da Praça Dom José Gaspar, projetado por Jacques Pilon, havia acabado de ser inaugurado quando ele assumiu o cargo.
Na direção da Biblioteca, Milliet enfrenta restrição de verbas e de pessoal, apesar de o discurso sobre sua inauguração apresentá-la como uma instituição de alta relevância para o país e para o estado. Mesmo em condições difíceis de orçamento, Milliet desenvolve um projeto dinâmico, organizando uma Seção de Livros Raros e uma Seção de Microfilmagem, reorganizando a Seção Circulante de Livros e criando a Seção de Arte. No auditório da Biblioteca, promove ciclos de conferências sobre diferentes temas das ciências humanas e sobre arte, num momento em que havia embates entre a arte acadêmica e arte moderna. É iniciativa de Milliet a publicação do Boletim Bibliográfico (que depois se transformou na Revista da Biblioteca Municipal). Além disso, estabelece intercâmbio com a Biblioteca de Paris.
Vamos dar especial destaque à Seção de Arte, por ser importante para o futuro MAM São Paulo. Inaugurada no dia 25 de janeiro de 1945, essa Seção nascia da intenção de reunir os livros da área para usufruto dos estudiosos e dos artistas – ali, era possível ter acesso a catálogos, revistas especializadas, livros, reproduções de obras de arte ilustrativas dos principais movimentos de vanguarda e obras originais de artistas modernos brasileiros. Milliet formou um acervo e organizou um arquivo de documentação de arte sobre papel, criando uma coleção de desenhos e gravuras originais que eram guardados em pastas, às quais artistas e pesquisadores podiam ter acesso. Criou, igualmente, um acervo de pintura moderna brasileira.
Com sua colaboradora Maria Eugênia Franco, organizava exposições didáticas sobre os movimentos artísticos modernos, apresentando ao público e aos jovens artistas as mudanças estéticas introduzidas com a arte moderna. Assim, trazia informações sistematizadas sobre arte moderna, num momento em que os acadêmicos dominavam os Salões de Arte e recebiam apoio governamental para a obtenção de bolsas de estudo e prêmios. Milliet apoiava os artistas modernos e os jovens que buscavam formação fora dos espaços acadêmicos quando esse debate era fundamental.
A Biblioteca Municipal tornou-se, nas mãos de Milliet, o primeiro centro cultural público do Brasil. E houve ainda mais um feito importante: ele conseguiu uma subvenção da Fundação Rockefeller para a Escola de Sociologia e Política, onde era professor, com a finalidade de criar uma Escola de Biblioteconomia que funcionaria junto à Biblioteca Municipal, permitindo a formação de profissionais especializados.
Um ano depois da fundação da Seção de Arte, o crítico Osório César, em artigo para a Folha da Noite, observou:²“a sua organização é uma das mais perfeitas e modernas de quantas existem nas bibliotecas da Europa e da América”. E descreve:
A Seção consta de uma ampla e higiênica sala de consultas com biblioteca especializada de artes plásticas. Neste setor, há uma catalogação especial para os livros de arte, baseada num sistema de ficha-dicionário, que traz os títulos, autores e os assuntos, em ordem alfabética, facilitando desse modo a consulta. Empregam-se também fichas de relação, com o propósito de aproximar livros e assuntos correlatos… Essa ideia foi concebida por Sérgio Milliet e se iniciou com a doação que ele próprio fez à Seção de Arte de todas as suas pastas de recortes de revistas e jornais de valor. Uma outra coleção que também foi criada e está crescendo bastante é a de organização de desenhos, pinturas a óleo e aquarelas originais… Agora a Seção está expondo a sua preciosa coleção de desenhos originais de nossos maiores pintores contemporâneos: Candido Portinari, Clóvis Graciano, Aldo Bonadei, Rebolo, Hilde Weber, Flávio de Carvalho, Pancetti, Walter Lewy, De Fiori, Figueira, Di Cavalcanti etc. (Folha da Noite, São Paulo, 21 fev. 1946).
² Citado por: SPINELLI, João. In: REBOLLO GONÇALVES, Lisbeth (org.). Sérgio Milliet 100 anos. São Paulo: ABCA/Imprensa Oficial, 2004, p. 52.
Pode-se dizer que a Seção de Arte ofereceu ao público, pioneiramente, um panorama sistemático e atualizado da história da arte ocidental e do pensamento crítico sobre arte da época, com um enfoque formativo e informativo, tendo, além do mais, a preocupação em construir uma memória artística da cidade, a partir de um acervo de obras. Milliet, como crítico de arte, sempre defendeu a necessidade de criar uma ação organizada para a arte moderna que nascia na cidade de São Paulo. Já em 1938, ele diz:
a ausência de um museu de arte moderna na cidade se faz duramente sentir. Se este existisse na nossa capital […] talvez não ficasse sem registro permanente o esforço notável dos pintores e escultores da atual geração brasileira (“Pintura moderna”.O Estado de São Paulo, 22 jul. 1938).
A ideia da Seção de Arte tem relação com seu desejo de um museu de arte moderna para a cidade de São Paulo.
Antes de falarmos de seu trabalho para a criação do MAM São Paulo, é preciso seguir a linha do tempo e observá-lo à frente de duas associações: a Associação Brasileira de Escritores (ABDE) e a Associação Brasileira de Críticos de Arte (ABCA). Em 1942, por iniciativa de escritores contrários ao Estado Novo, foi fundada, no Rio de Janeiro, a ABDE.
Entre seus fundadores estavam Otávio Tarquínio de Sousa (presidente), Sérgio Buarque de Holanda, Astrojildo Pereira, Graciliano Ramos, José Lins do Rego, Sérgio Milliet, Mário de Andrade, Oswald de Andrade e Érico Veríssimo. Em 1944, no período da Segunda Guerra Mundial, a ABDE decidiu organizar um congresso no Teatro Municipal de São Paulo, iniciado em 22 de janeiro de 1945. A abertura do evento, presidida por Sérgio Milliet, foi uma manifestação de oposição ao governo Vargas, contribuindo para aprofundar a crise do regime. Em seu discurso, o crítico falou da importância do intelectual tomar posição em momentos difíceis da vida política.
Milliet foi também ligado ao surgimento de outra associação que traria importantes contatos para o futuro MAM São Paulo e sua Bienal: a ABCA. Ele esteve nas reuniões de Paris, na UNESCO, em 1948, 1949 e 1950, quando foi criada a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA).
Em 1949, no segundo encontro, quando já se apresentou a proposta de estatutos da AICA, anunciou-se a criação de treze seções nacionais – uma delas, a brasileira. Nesse ano, houve um Simpósio no qual Milliet apresentou uma comunicação intitulada “A marginalidade da pintura moderna”. No texto, ele discute a modernidade como processo social, com uma visão pioneira para a época, usando recursos da metodologia sociológica e da história da arte. Sua comunicação foi apresentada em francês e se encontra nos Archives de la Critique d’Art [Arquivos da Crítica de Arte], alocado em Rennes, na França.
Nesta reunião da AICA, em que Paul Fierens foi escolhido para ser o primeiro presidente, Milliet foi indicado como secretário regional para a América Latina. No mesmo quadro administrativo, estavam como vice-presidentes: Lionello Venturi (Itália), James Johnson Sweeney (Estados Unidos), Raymond Cogniat (França), Eric Newton (Grã-Bretanha), Jorge
Juan Crespo de la Serna (México) e Gerard Knuttel (Países Baixos). Simone Gille-Delafon (França) foi indicada como secretária-geral e Walter Kern (Suíça) como tesoureiro.
Milliet foi o presidente da ABCA de 1949 a 1959, cargo que exercia quando aconteceu o Congresso Extraordinário da AICA, de 1959, no Brasil, por ocasião da fundação de Brasília, nova capital do país. O Congresso foi realizado em Brasília, Rio de Janeiro e São Paulo, na ocasião da 4a Bienal de São Paulo (1957), tendo sido organizado, com o apoio de Juscelino Kubitschek, por Mario Pedrosa e Mário Barata, em torno do tema “Brasília, síntese das artes”.
Ao mesmo tempo que consolidava suas ações na Biblioteca e participava da criação de associações, Milliet engajava-se no projeto de criação do MAM São Paulo, ideia que defendia desde 1938.
A ideia de criar um museu de arte moderna em São Paulo existia desde o Departamento de Cultura, pensado na estrutura do governo. Porém os momentos eram difíceis e não havia chances para a criação do museu na instância pública. Uma brecha surgiu quando, na Escola de Sociologia e Política, onde também atuava,³ ele teve contato com diplomatas americanos interessados na aproximação com o Brasil – especialmente Carleton Sprague Smith, que era o adido cultural em São Paulo e se relacionava com Nelson Rockefeller.
Sérgio Milliet atua, ao lado de Eduardo Kneese de Mello, como um interlocutor dos americanos e do grupo de intelectuais e artistas interessados na criação do museu. Nessa época, muitas reuniões de intelectuais brasileiros acontecem com a participação de arquitetos, artistas, jornalistas e outros interessados. Milliet é muito ativo nesse grupo.
O crítico vai aos Estados Unidos em 1942, mesmo ano em que se dá a visita de David Stevens, diretor da Divisão de Humanidades da Fundação Rockefeller, à Escola de Sociologia e Política. Milliet corresponde-se com Nelson Rockefeller, e eles falam sobre a doação de um conjunto de obras como estímulo à formação dos futuros museus de arte moderna de São Paulo e do Rio de Janeiro. Para São Paulo, serão oferecidas aquarelas, guaches e pinturas a óleo, de Georg Grosz, Marc Chagall, André Masson, Fernand Léger, Max Ernst, Alexander Calder, Byron Browne, Morris Graves, Jacob Lawrence, Arthur Ovsner, Robert Gwathmey, Everett Spruce – artistas selecionados por Alfred Barr e Dorothy Miller. Essas obras, entregues ao público brasileiro, foram apresentadas em exposição na Seção de Arte, em novembro de 1946. Os artistas, cujas obras foram foram doadas, eram jovens americanos ou europeus que haviam se exilado nos Estados Unidos, na época da guerra, e a doação tinha o intuito de mostrar a importância desse país, já naquela época, no contexto da cultura ocidental. Sobre essa doação, diz Rockefeller em carta a Milliet, redigida em francês: “Minha intenção, dando alguns objetos de arte ao Brasil, não é fundar uma coleção, nem aumentar uma coleção já existente, mas acelerar um momentum latente”.
E menciona um convênio a ser assinado entre o MAM São Paulo, o Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (MAM Rio) e o Museu de Arte Moderna de Nova York (MoMA).
De 1946 em diante, muitas reuniões são realizadas no Instituto dos Arquitetos do Brasil (IAB), que mantém a guarda do acervo doado. Empresários se aproximaram do projeto por esta época. Assis Chateaubriand, fundador do Museu de Arte de São Paulo (MASP), é sensibilizado, assim como Francisco Matarazzo Sobrinho, que passa a participar das reuniões.
Ao que consta, a decisão de acolher o apoio de Matarazzo para a criação do MAM se dá com o aval norte-americano. Matarazzo e Yolanda Penteado iniciam, nesse momento, a compra de obras para o acervo. Cogita-se entregar a direção do museu a Sérgio Milliet, mas ele não pode acumular a função com o cargo que possui junto ao município. Busca-se um diretor fora do Brasil, e o primeiro seria o belga Léon Degand.
No catálogo da primeira mostra do museu – Do figurativismo ao abstracionismo —, encontra-se um texto do diretor Léon Degand e de Sérgio Milliet. Milliet estará sempre ligado à vida dessa instituição e será um agente de máxima importância na Bienal, que é criada como evento internacional do museu, a primeira ocorrendo em 1951.
Para Sérgio Milliet, esse momento da história cultural e da arte moderna é profícuo. Ele diz na imprensa: “salta aos olhos o espírito de liberdade”.
Em 1952, obtém da Prefeitura uma licença para dedicar-se à organização da 2ª Bienal de São Paulo – a do IV Centenário –, e o mesmo se dará na terceira e na quarta edições.
Na função de diretor artístico, considera necessário não apenas o contato com a contemporaneidade, mas também a aproximação com os grandes patrimônios da história da arte moderna, isto é, o conhecimento e o vivo contato com obras e artistas ligados aos principais momentos da trajetória da arte moderna, no século XX. Em texto redigido para o catálogo da 2ª Bienal, assim se expressa:
Ao lado das soluções abstratas e concretistas, as soluções figurativas, pois a Bienal traz um amplo confronto de tendências. Ao lado do expressionismo que se exprime pela deformação, o cubismo que se compraz na construção geométrica. Junto à tentativa de pintar o sonho e revelar o mundo inconsciente, a ambição de descrever objetivamente o mundo da realidade, crítica social, participação, evasão, fantasias, ciências, toda a cultura de nossa época, caótica, contraditória, atraente e hostil, a um tempo, se espelha nessa arte discutida e discutível, polêmica quase sempre, construtiva por vezes, mas viva, presente, que não podemos ignorar. (MILLIET, 1953, p.16)
Evidencia-se, mais uma vez, em sua prática cultural, a preocupação com a ação educativa, com a formação e a atualização de informação dos artistas e do público, de modo a fomentar a arte do presente. O plano museológico que aparecia na Seção de Arte encontra espaço para consolidar-se num museu e numa bienal. A infraestrutura para a ação é, agora, uma realidade.
Em 1959, decide aposentar-se de suas atividades junto à Biblioteca e deixa a direção das Bienais. Sua presença na cena cultural torna-se menos evidenciada, embora ele continue como assessor da Área de Artes Plásticas da Bienal de São Paulo, realizando contatos no exterior e recebendo algumas missões junto à UNESCO. Continua também redigindo sua coluna sobre arte e literatura para o jornal O Estado de São Paulo. A partir dos anos 1960, escreve, principalmente, resgatando suas memórias.4 Morre no dia 9 de novembro de 1966.
³ Foi secretário-geral, de 1933 a 1935, e professor, de 1937 a 1944.
4 Textos reunidos nos livros De ontem, de hoje, de sempre e De cães, de gatos, de gente.
CANDIDO, Antonio. Apresentação. In: Diário crítico. São Paulo: Martins/Edusp, 1981.
MILLIET, Sérgio. Pintores e pinturas. São Paulo: Martins, 1940.
________. Marginalidade da pintura moderna. São Paulo: Ed. Departamento de Cultura, 1942.
________. Pintura quase sempre. Porto Alegre: Ed. Globo, 1944.
REBOLLO, Lisbeth Gonçalves. Sérgio Milliet, crítico de arte. São Paulo: Editora Perspectiva/Edusp, 1992.
________. Sérgio Milliet, gestor cultural. Palestra para o Instituto de Estudos Avançados da USP, 1o. dez. 2017.
________ (org.). Sérgio Milliet 100 Anos. São Paulo: ABCA/Imprensa Oficial, 2004.
SPINELLI, João. Sérgio Milliet, o idealizador de museus de arte moderna. In: REBOLLO
GONÇALVES, Lisbeth (org.). Sérgio Milliet 100 Anos. São Paulo: ABCA/Imprensa Oficial, 2004.
Helouise Costa curadora e professora, MAC USP

As ações iniciais da Seção de Arte da Biblioteca Municipal de São Paulo (BMSP), atual Biblioteca Mário de Andrade (BMA), e a sua posterior colaboração com o Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM São Paulo) constituem um esforço institucional sistemático, dos mais significativos, para a formação de público e difusão da arte moderna na cidade, entre as décadas de 1940 e 1950. Criada por Sérgio Milliet, em 1945, a Seção de Arte, que desde o início esteve sob a direção de Maria Eugênia Franco, assumiu um papel central nesse processo ao organizar exposições didáticas com reproduções de obras de arte, mais tarde potencializadas pela parceria estabelecida com o MAM São Paulo. Franco articulou crítica, pedagogia e documentação para tornar a arte moderna acessível ao público. Este texto defende que a importância de Maria Eugênia permanece subestimada pela historiografia e argumenta que sua atuação foi decisiva para a formação de público e institucionalização da arte moderna em São Paulo, bem como para o estabelecimento de novas metodologias para o que hoje denominamos de mediação cultural.¹
Mário de Andrade foi enfático ao argumentar sobre a importância do uso de reproduções como forma de democratização do acesso à arte no Brasil em seu texto Museus populares, publicado em 1938. O crítico, que na ocasião estava na direção do Departamento de Cultura e Recreação de São Paulo, defende a criação de museus de reproduções e critica a precariedade dos museus de arte locais.
O que de principal nós podemos tirar da Gioconda, a reprodução dela nos dá. Sejamos reais. Em vez de tortuosos museus de belas-artes, cheios de quadros verdadeiros de pintores medíocres, com menos dinheiro abramos museus populares de ótimas reproduções feitas por meios mecânicos. Com todas as escolas de artes representadas por seus gênios maiores e suas obras principais. Museus claros. Museus francos. Museus leais.²
Não por acaso, Sérgio Milliet, crítico de arte e literatura, colaborador designado por Andrade para a direção da BMSP, em 1943, organizou uma exposição permanente de reproduções de pinturas clássicas e modernas, paralelamente à formação de uma coleção de obras de arte originais sobre papel, de autoria de artistas modernos brasileiros.
Nomeado diretor da Biblioteca Municipal, o ilustre escritor não poderia deixar de imprimir ao seu importante departamento uma feição de interesse pelas belas-artes. Assim é que, contando com o apoio do prefeito Prestes Maia, organizou uma interessante exposição permanente de reproduções de quadros célebres no saguão de entrada do grande edifício da rua da Consolação. A iniciativa é útil e demonstra uma inteligente percepção da importância das bibliotecas como instrumentos práticos de vulgarização cultural. Com a nossa precariedade triste em matéria de museus, não podemos dar ao povo a menor oportunidade de um contato mais ou menos íntimo com a arte. Com a sua mostra permanente de boas reproduções, a Biblioteca atenua essa falta.³
Essas iniciativas seriam consolidadas com a criação da Seção de Arte da Biblioteca Municipal, em 1945, cuja direção Sérgio Milliet confiou à escritora e crítica de arte Maria Eugênia Franco.
As exposições didáticas foram concebidas por Maria Eugênia Franco como percursos educativos, nos quais as reproduções eram acompanhadas de textos explicativos, bibliografia de apoio, revistas e material iconográfico adicional, todos consultáveis no local. Eram dirigidas tanto a artistas quanto a interessados em arte, em geral, ainda pouco familiarizados com a arte moderna. Apesar da escassez de documentação sobre as exposições organizadas pela Seção de Arte, identificamos a realização de Pintura norte-americana, inaugurada em outubro de 1945, com reproduções acompanhadas de excertos compilados de livros de história da arte. Ainda na segunda metade da década de 1940, realizaram-se as seguintes mostras: Pintores impressionistas, Escolas da pintura moderna, Influência dos pós-impressionistas Cézanne, Gauguin e Van Gogh no Cubismo, Fauvismo e Expressionismo; Renascença Italiana e Os precursores da pintura francesa contemporânea.
Na introdução de sua importante obra Psychologie de l’Art, André Malraux observa que a invenção da reprodução colorida, tornando possível a apreciação e comparação das obras de arte distribuídas por todos os museus do mundo, “abriu um Museu Imaginário sem precedentes”. Esse “museu”, diz Malraux, vem tendo influência extraordinária no desenvolvimento dos estudos artísticos, pois permite que se preencham lacunas da confrontação incompleta das obras dos verdadeiros museus. A fim de chamar atenção dos estudiosos da arte – tão numerosos atualmente em São Paulo – para a importância indiscutível das reproduções coloridas, a Seção de Arte da Biblioteca resolveu apresentar, no intervalo da preparação das exposições didáticas, séries avulsas de reproduções de grande formato e álbuns diversos. As exposições de reproduções já vinham sendo feitas há longo tempo, num esforço de divulgação do acervo da seção. Pondo-as agora sob o signo do “Museu Imaginário” esperamos apenas que a sugestiva noção da possibilidade de existência de um museu ideal, ao alcance de todos nós, por intermédio da reprodução da obra de arte, venha estimular, ainda mais, os estudos artísticos e a frequentação de nossa sala de leitura.
É importante notar que, para Maria Eugênia Franco, as reproduções não eram entendidas como simples substitutas da obra original, mas como instrumento pedagógico carregado de grande potencial informativo quando devidamente contextualizadas. Essa abordagem deslocava a biblioteca de seu papel tradicional de repositório, reposicionando-a como instituição ativa, capaz de produzir sentido, orientar interpretações e formar repertórios.
1 A maior parte das reflexões reunidas nesta apresentação foram desenvolvidas em três textos publicados anteriormente. Ver: COSTA, 2014; 2016; 2018.
2 ANDRADE, 1938.
A fundação do MAM São Paulo motivou que parte das mostras organizadas pela Seção de Arte da BMSP passassem a ser concebidas em diálogo direto com a programação do museu. Acreditava-se que a visitação do público a ambos os espaços seria facilitada pela proximidade dos endereços onde funcionavam as duas instituições.
Entre os exemplos dessa ação conjunta, destacamos quatro exposições que conseguimos identificar. A primeira, já comentada, foi Origens e evolução da pintura de Picasso, cujas reproduções apresentadas na Biblioteca foram complementadas por uma seleção de obras do artista, existentes em coleções privadas paulistanas, exibidas no MAM São Paulo em novembro de 1949. Já a mostra Os precursores da pintura francesa contemporânea foi organizada pela BMSP simultaneamente à exposição vinda da França De Manet a nossos dias, realizada no museu. Por fim, O abstracionismo e seus criadores foi pensada como complemento à Exposição de artistas de vanguarda da revista Art d’aujourd’hui, apresentada no MAM São Paulo em novembro de 1954.
A parceria entre a BMSP e o MAM São Paulo estendeu-se também à circulação de outros materiais didáticos adquiridos pela biblioteca. Esse foi o caso de Que é pintura moderna?, uma das chamadas “exposições múltiplas” circulantes preparada e comercializada pelo Museu de Arte Moderna de Nova York (MoMA).6 Exibida tanto na BMSP quanto na Bienal de São Paulo, que na ocasião era organizada pelo MAM São Paulo, a mostra contribuiu para reforçar a convergência de objetivos entre as duas instituições. Podemos dizer que a atuação conjunta da Biblioteca e do Museu consolidou um modelo de cooperação cultural até então inédito na cidade. A combinação entre as exposições didáticas da Biblioteca e as mostras de obras originais no MAM São Paulo, acrescidas ou não de reproduções, possibilitou um percurso formativo integrado, destinado a tornar a arte moderna acessível e compreensível para diversos públicos, contribuindo ainda para o amadurecimento do circuito artístico paulistano no pós-guerra.
O valor das reproduções no contexto do pós-Segunda Guerra Mundial
Em que pese a avaliação depreciativa que hoje se possa fazer sobre o uso das reproduções para o aprendizado da história da arte ou para o contato com as obras, é possível constatar, por meio de diversas fontes, que esses materiais eram bastante valorizados no pós-Segunda Guerra Mundial, especialmente em função dos avanços, então recentes, das técnicas de impressão em cores. Podemos citar, como exemplo, uma matéria publicada na imprensa que aponta para a crença no suposto poder das reproduções de transformar, a longo prazo, todo o sistema da arte, avaliação corroborada
por Sérgio Milliet: