com Filipe Barrocas
Datas: 22 e 29 de outubro, e 05 e 12 de novembro de 2026
Quintas-feiras
Horário: das 19h às 21h
Duração: 4 encontros
Público: interessados em geral
Investimento: R$ 350,00 + taxas
Curso online
Ao vivo, via plataforma de videoconferência
Aulas gravadas disponibilizadas apenas por tempo determinado
Contempla certificado no final
Para intérprete de Libras, solicitar pelo e-mail cursos@mam.org.br com antecedência de 7 dias úteis.
Como a história da arte contribuiu para construir as imagens que temos do Brasil? E de que modo essas imagens ajudaram a criar, consolidar e, mais recentemente, questionar uma determinada ideia de identidade nacional?
Este curso propõe uma reflexão crítica sobre o papel da história da arte na construção da identidade brasileira, do século XIX aos dias de hoje. Em um período conturbado, marcado pelo confronto entre o pessimismo científico em relação ao progresso de um país tropical e mestiço e o otimismo nacionalista de uma nação em formação, o Brasil recém-independente recebe um passado glorioso como promessa de um futuro promissor, forjando um imaginário e um mito nacionalista. Trata-se de um mito luso-brasileiro, como aponta Sérgio Buarque de Holanda, que, se não for desmistificado, continua a ocultar os processos de invenção histórica e construção cultural.
Nesse contexto, a história ficcionalizada inspira a produção de imagens, enquanto a arte contribui para reafirmar e legitimar essas narrativas. Inicialmente representadas por pinturas que traduziam documentos, relatos e crônicas, essas cenas migraram das paredes solenes dos salões para as páginas dos livros didáticos, fixando uma memória visual do passado. Décadas mais tarde, com a invenção do cinema, esse processo de difusão se acelera e amplia o seu alcance.
Destinado a todas as pessoas interessadas em história da arte, o curso propõe um percurso por diferentes momentos de construção e revisão do imaginário nacional, colocando em diálogo linguagens como a literatura, a pintura, a escultura e o cinema.
Programação
Aula 1 – Pintura oitocentista e a representação da história
Este encontro concentra-se na pintura oitocentista de artistas como Pedro Américo, Victor Meirelles e Óscar Pereira da Silva, entre outros, e em como essas imagens contribuíram para a consolidação do imaginário desse mito fundador. Aborda o surgimento da historiografia brasileira, a construção de uma narrativa nacional e as influências de relatos e crônicas, analisando como a pintura participou da construção e legitimação de narrativas históricas. Em contraponto, será discutida a obra de Antônio Parreiras, cuja prática não se limita a ilustrar o passado, mas também a interpretá-lo criticamente, propondo ainda diálogos entre essas pinturas históricas e as obras presentes na exposição Histórias Brasileiras, realizada no Masp em 2022.
Aula 2 – Da literatura romântica à Semana de Arte Moderna de 1922
Este encontro analisa como os povos indígenas foram apropriados como origem simbólica da nação, situando-se entre a idealização do romantismo, a interpretação belicosa da poesia épica e a discriminação do racismo científico. Discute também como essa matriz simbólica atravessa a Semana da Arte Moderna de São Paulo de 1922, a partir da produção de artistas e intelectuais como Anita Malfatti e Menotti Del Picchia, entre outros. Cem anos depois, a exposição “Sob as cinzas, brasa” (37º Panorama da Arte Brasileira, MAM, 2022) é analisada como um espaço de reinterpretação crítica desse legado, reunindo artistas contemporâneos que propõem outras formas de narrar a história e imaginar o passado.
Aula 3 – As celebrações do descobrimento e a carta de Caminha, ainda
Este encontro examina a permanência do imaginário colonial nos primeiros anos da República, quando continuaram a ser produzidos monumentos e imagens que exaltavam a chegada dos portugueses. A carta de Pero Vaz de Caminha tornou-se um eixo central de disputas simbólicas, inspirando concursos artísticos como o do IV Centenário do Descobrimento, em 1900, vencido por Aurélio de Figueiredo e Melo com a tela Descobrimento do Brasil. Um século depois, na mostra Brasil + 500, Mostra do Redescobrimento (2000), artistas contemporâneos portugueses e brasileiros, como Fernando Lemos e Rosângela Rennó, revisitaram criticamente esse documento, deslocando os seus sentidos históricos e políticos.
Aula 4 – Cinema, história e, novamente, a pintura
Este encontro examina a mobilização do imaginário colonial no contexto do Estado Novo, sob o regime de Getúlio Vargas, com destaque para a criação do Instituto Nacional de Cinema Educativo, em 1936, e a realização de Descobrimento do Brasil (1937), do cineasta mineiro Humberto Mauro. Inicialmente concebido como peça de propaganda do Instituto de Cacau da Bahia, o filme adquire uma função simbólica na construção da identidade nacional, constituindo uma das primeiras incursões do cinema brasileiro no campo do filme histórico. Analisa-se ainda como a disseminação da história pode tirar partido dos novos meios de representação e como Mauro reencena pinturas oitocentistas, contribuindo para a legitimação dessas narrativas. Em diálogo com esse movimento, discute-se o Cinema Novo e produções contemporâneas que revisitam criticamente esse imaginário, a partir de artistas e realizadores como Ana Bella Geiger e Adirley Queirós, entre outros, que reconfiguram as relações entre imagem, memória, história e poder.
Filipe dos Santos Barrocas
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créditos
Imagem: Filipe dos Santos Barrocas. [Sem título], da série Sandice Erasma (2007-2027). Foto: Filipe dos Santos Barrocas.
