Entre o que se queima e o que renasce, diversos processos naturais se dão por meio do fogo e seu poder de transformação. Em uma conjuntura em ebulição — seja em termos das mudanças sociais que se sobrepõem, seja no sentido literal, que se apresenta com o aquecimento global —, sublinha-se o papel da arte enquanto prática dedicada a articular simbolicamente o real.
A 38ª edição do Panorama da Arte Brasileira: Mil Graus chega ao Sesc Campinas como brasa viva, reunindo produções que iluminam e elaboram sensibilidades, identidades e experiências provenientes de diversos contextos do país. Constituindo-se como reflexão crítica à realidade nacional, a mostra reúne artistas cujas práticas atravessam questões urgentes: do ecológico ao tecnológico, do político ao espiritual.
Como matéria em transmutação, essas produções amolecem limites da linguagem e ativam memórias coletivas contra hegemônicas, propondo não apenas reflexão, mas ação. A partir de uma compreensão do espaço expositivo como ambiente onde contrastes e conexões se fundem, as obras selecionadas operam como dispositivos de fissura — expõem rachaduras em lógicas cristalizadas e sugerem novos modos de habitar o mundo.
Com esta itinerância da mostra, inaugurada em 2024 no MAC USP e realizada pelo Museu de Arte Moderna de São Paulo, o Sesc busca ampliar o acesso às camadas simbólicas que compõem a exposição. Além da visitação, a programação inclui mediações educativas que aprofundam as instâncias de partilha entre artistas e públicos. Como os estados transitórios da matéria que o calor enseja, interessa à instituição constituir-se como espaço educativo em que processos subjetivos entre o que foi e o que está por vir se dão, revelando-se nas experiências criadoras próprias ao campo artístico.
Luiz Deoclecio Massaro Galina Diretor do Sesc São Paulo
A série Panorama da Arte Brasileira é um marco na história das exposições. Iniciado em 1969, o Panorama do Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM São Paulo) contribuiu com suas diversas mostras para a formação do acervo de arte contemporânea do museu.
Com curadoria de Germano Dushá, Thiago de Paula Souza e Ariana Nuala, a presente edição, intitulada Mil graus, aborda o mundo contemporâneo a partir de condições extremas, tanto no sentido de questões históricas e sociopolíticas, como também em relação a discussões ecológicas e tecnológicas, promovendo iniciativas que estimulem a reflexão sobre arte na nossa sociedade.
Faz alguns anos que o MAM tem estabelecido parcerias com outras instituições culturais no estado de São Paulo. Realizar a itinerância do 38º Panorama da Arte Brasileira do MAM no Sesc Campinas é um novo momento de integração e soma de esforços em benefício da arte.
Elizabeth Machado Presidente da Diretoria do Museu de Arte Moderna de São Paulo
Cauê Alves Curador-chefe do Museu de Arte Moderna de São Paulo
Intitulado Mil graus, o 38º Panorama da Arte Brasileira elabora criticamente a realidade atual do país sob a noção de calor-limite — uma temperatura em que tudo se transforma. O projeto busca traçar um horizonte multidimensional da produção artística contemporânea brasileira, estabelecendo pontos de contato e contraste entre diversas pesquisas e práticas que, em comum, compartilham uma alta intensidade energética. Ao reunir artistas e outros agentes que abordam questões ecológicas, históricas, sociopolíticas, tecnológicas e espirituais, a exposição serve também como um ativador da memória e do debate público. Como conjunto, as obras driblam os limites da linguagem e seus sentidos preestabelecidos, revelando signos universais por meio de gestos e sotaques regionais. A ideia de uma temperatura oposta ao zero absoluto — ou seja, um quente absoluto — aponta os interesses deste Panorama por experiências radicais, condições extremas, sejam elas climáticas ou metafísicas, e estados transitórios da matéria e da alma que nos põem diante da transmutação como destino inevitável.
Ao longo do processo de pesquisa que fundamentou a exposição, cinco linhas conceituais emergiram para aterrar o pensamento curatorial. Como bússolas que orientam questões fundamentais do projeto, os eixos ajudaram na criação do recorte da cena contemporânea brasileira que está registrada neste Panorama. No entanto, não foram usados para segmentar a mostra e nem se aplicam como categorias ou agrupadores. São fios condutores que instigam reflexões e leituras e traçam possíveis relações entre os trabalhos a partir dessas perspectivas.
Ecologia geral
Noções ecológicas e práticas ambientais ampliadas que se orientam por uma visão de interconectividade total. Ao rejeitar dogmas antropocêntricos e dicotômicos que separam a cultura da natureza orgânica, esses movimentos abraçam a pluralidade das formas de vida e seus jogos biológicos. Sob um crescente senso de urgência, essas correntes de pensamento propõem outras concepções sobre a condição humana e traçam novos caminhos para atuarmos e nos relacionarmos com o planeta e seus muitos agentes.
Territórios originários
Narrativas e vivências de povos originários, quilombolas e de outros modos de vida fora da matriz uniformizante do capital, capazes de refletir visões alternativas sobre a invenção e a atual conjuntura do Brasil. Nesse sentido, invocam energias ancestrais, mitologias configurantes e consciências expandidas para trazer à tona invenções estéticas, tecnologias socioambientais e articulações transpolíticas. Seja na luta pela demarcação de terras ou em estratégias diversas para fortalecer comunidades autônomas, o que está em jogo é a multiplicação das possibilidades vitais diante do agouro de um futuro incerto.
Chumbo tropical
Leituras críticas que subvertem imaginários e representações do Brasil, pondo em xeque aspectos centrais da identidade nacional. Nesse sentido, contrastam — ou equacionam — os fetiches ligados à ideia de paraíso dos trópicos ao peso dos séculos de colonização escravocrata e extrativista, do colosso modernista, do ímpeto conservador e autoritário — e sua inevitável militarização —, e da eterna promessa de decolagem da economia. Essas propostas confrontam premissas funestas e incendeiam prisões históricas para desnaturalizar a devastação ambiental, a especulação financeira e a opressão racial.
Corpo-aparelhagem
Intervenções experimentais e reflexões sobre a contínua transmutação corpórea dos seres e das coisas, com seus hibridismos e suas inter-relações. Este eixo abrange a cultura de reprodução técnica, do sample e da apropriação; as relações entre tecnologia de ponta e gambiarra engenhosa; os efeitos da alta conectividade à internet; e as noções de biohacking e modificações corporais sob um imaginário ciborgue, transhumano e pós-humano. Imagens e sonoridades são remixadas, distorcidas e, por vezes, desmanchadas, como modo de encarar frontalmente as consequências radicais de um mundo em transformação vertiginosa.
Transes e travessias
Conhecimentos transcendentais, práticas espirituais e experiências extáticas que canalizam os mistérios vitais. São rituais, instrumentos e espaços que conjuram alentos para alimentar a alma e pulsões para animar o corpo, alcançando proteções, fundamentando resistências e reelaborando condições opressivas e traumas confinantes. São embarcações que navegam por encruzilhadas e atravessamentos, indo além das fronteiras da matéria e das percepções terrenas para conectar com o etéreo e coexistir com o desconhecido.
Natural de Serra dos Carajás (PA), Germano Dushá é curador, escritor, crítico e agente cultural. Graduado em Direito (FGV-SP) e pós-graduado em Arte: Crítica e Curadoria (PUC-SP), ele vive e trabalha em São Paulo. Sua pesquisa traz o cruzamento entre estética, crítica e tradições esotéricas, e sua prática assume múltiplas formas — em experimentações curatoriais, literárias e hipermídias — para investigar imaginários sociais, e a energia ligada às experiências subjetivas radicais e aos processos de transmutação. Ao longo de sua trajetória, vem colaborando com instituições, galerias e publicações em diferentes países. Entre as exposições mais recentes em que assinou curadoria, estão Esfíngico Frontal, da Galeria Mendes Wood DM (São Paulo) e Arqueia mas não quebra, da Almeida & Dale (São Paulo), ambas de 2023; Calor Universal, na Pace Gallery (Hamptons) e Semana sim, Semana não, da Casa Zalszupin (São Paulo) em 2022; e A Hora Instável, na Bruno Múrias (Lisboa), em 2019. Atualmente é coordenador do Fora, organização pluridisciplinar fundada em 2018 que trabalha com projetos culturais e estratégias institucionais.
Thiago de Paula Souza
(Taboão da Serra (SP), 1985 )
Thiago de Paula Souza é curador e educador. Sua pesquisa perpassa o desejo de ampliar e reelaborar o formato expositivo, e a potência da arte contemporânea e da educação ao repensarem o passado e produzirem novos códigos éticos. A prática de Thiago cruza diferentes configurações de conhecimento e poder, articulando a construção de infraestruturas para imaginar um mundo em que a violência não é mais seu fundamento. É formado em Ciências Sociais pela Unesp e doutorando pela HDK-Valand na Universidade de Gotemburgo, Suécia. Entre os projetos institucionais em que já atuou estão: While We Are Embattled (2022), do Para Site, em Hong Kong, onde foi co-curador; e Atos de revolta, no MAM Rio; integrou equipes curatoriais da 3ª edição da Frestas — Trienal de Artes (2020 – 2021), organizada pelo Sesc São Paulo; We don’t need another hero — 10ª Bienal de Berlim (2018); e foi consultor curatorial da 58ª Carnegie International (2012/2022). Entre 2022 e 2023 foi co-curador do Nomadic Program da Vleeshal Center for Contemporary Art na Holanda. Atualmente integra o comitê de curadores da Ners Foundation Sua mais recente exposição foi Some May Work as Symbols: Art Made in Brazil, 1950-1970.
Ariana Nuala
(Recife (PE), 1993 )
Ariana Nuala nasceu em Recife (PE), onde vive e trabalha. É educadora, pesquisadora e curadora que se envolve com coletivos artísticos para discutir dinâmicas de poder, impermanência e diáspora. Ela combina estratégias que surgem do corpo para seu exercício na escrita, moldando sua prática curatorial de forma poética. Tem formação em Lic. em Artes Visuais pela UFPE e atualmente é mestranda em História da Arte na UFPB, com experiências acadêmicas na UNAM e CLACSO. Ocupa o cargo de Gerente de Educação e Pesquisa na Oficina Francisco Brennand, instituição onde já foi curadora, e também já foi Coordenadora de Educação no Museu Murillo La Greca (2018-2020). Foi curadora da exposição Invenção dos Reinos em conjunto com Marcelo Campos na Oficina Francisco Brennand. Colaborou com galerias como Marco Zero (PE) nas exposições As Janelas de Bajado. de Bajado, e Festa para o Caçador, de Gilvan Samico; com a Verve na exposição Vira-casaca, de Fefa Lins (SP); com a Almeida e Dale (SP) na exposição coletiva Arqueia mas não quebra, em colaboração com Germano Dushá e Rafael RG; com a Cavalo na exposição Labirintos Vivos, de Ana Clara Tito (RJ); com a Nara Roesler (SP) na exposição Infinito outros, de José Patrício, entre outras colaborações, como na curadoria da exposição Além. Aquém. Aqui. de Abiniel João Nascimento no Centre d’Art Contemporain Paradise (França) e na curadoria da exposição coletiva Estratégias para o contorno que circulou em várias unidades do SESC PE. Foi também orientadora da residência PEMBA no projeto DOS BRASIS e colabora em júris artísticos e na criação de residências para agentes das artes.
artistas
Adriano Amaral
(Ribeirão Preto (SP), 1982)
O trabalho de Adriano Amaral envolve um exame da natureza das coisas do mundo; a materialidade e a substância do que esta ao nosso redor assim como seu valor e poder de transformação ao longo do tempo. Sua prática parte de uma abordagem intuitiva e plural, e resulta em complexas instalações imersivas sempre sensíveis ao contexto em que está inserida.
Depois de concluir seu mestrado na Royal College of Art de Londres em 2014, Adriano fez uma residência artística de dois anos no De Atelier em Amsterdã e em seguida recebeu o Mondrian Fonds Work Contribution Proven Talent em 2017.Suas recentes exposições institucionais incluem projetos solos no Kunstinstituut Melly (Rotterdam, Holanda), Vleeshal Zusterstraat (Middelburg, Holanda) e Bielefelder Kunstverein (Bielefeld, Alemanha).
Exposições coletivas incluem projetos no Mudam (Luxemburgo), Sixty Eight Art Institute (Copenhague), Museu de Arte Moderna de Moscou e Beelden Aan Zee (Haia, Holanda).
Foto: Alexandre Virgilio
Advânio Lessa
(Ouro Preto (MG), 1981)
Advânio Lessa nasceu e vive até hoje em Lavras Novas, distrito de Ouro Preto (MG). Tanto a sua terra de origem, marcada pela herança quilombola, quanto os ofícios de seus pais (tropeiro e cesteira), são partes fundamentais do universo que irriga a sua poética. Realizando esculturas de grande escala a partir de troncos de madeira de árvores mortas, raízes e trançados de cipó, o artista vincula os conhecimentos da cestaria e da marcenaria com as madeiras e fibras encontradas nas matas da região de Ouro Preto: Cipó Alho, Cipó São João, Candeia, Jacarandá, Folha Miúda e Alecrim. É em estreito diálogo com esse repertório que Lessa, que também é agricultor, realiza suas peças. Nesse sentido, não nos parece enganoso afirmar que a natureza aqui é uma espécie de co-autora de suas obras.
A produção do artista ganha o mundo munida, a um só tempo, de uma intensa eloquência formal e de uma relevante conotação discursiva. Suas esculturas, cujas escalas se aproximam àquela do corpo humano, atestam uma relação de reciprocidade entre nós e tudo aquilo que é vivo ao nosso redor. Nesse sentido, ressoam uma tendência importante da atualidade: no lugar de epistemologias caras a um modo Ocidental de conceber o mundo, para as quais nós humanos estamos sempre em posição superior, entram em cena cosmologias onde testemunha-se uma relação não hierárquica entre todos os seres vivos.
Foto: Heber Bezerra – makeplug
Ana Clara Tito
(Rio de Janeiro (RJ), 1993)
Ana Clara Tito desenvolve sua prática artística a partir do corpo, seus estados físicos e mentais, e as relações que estabelecemos com os espaços que construímos e habitamos. Em objetos, fotografias, performances e instalações, sua obra integra elementos que remetem à arquitetura e arqueologia com ítens íntimos. Matérias como destroços de concreto, cacos de barro e metais oxidados, são usadas no desenvolvimento de um universo que reflete sobre limites, tanto carnais quanto de paridade, propondo exercícios de permissão.
Em 2023, Tito apresentou individuais na galeria Cavalo, no Rio de Janeiro e no Auroras, em São Paulo. Em 2021, apresentou no MAM Rio a individual “O que se degrada segue em frente”. Integrou exposições coletivas no Museu de Arte do Rio, Instituto Moreira Salles, Valongo Festival Internacional da Imagem, Galpão Bela Maré, entre outros. Nos últimos anos, participou das residências FAAP (2023), Pivô (2022) e MAM Rio – Capacete (2020). Graduou-se em desenho industrial pela Esdi-UERJ e é mestre em artes visuais pelo PPGArtes UERJ. Participa do 38 Panorama da Arte Brasileira e é co-fundadore e integrante da Nacional Trovoa.
Davi Pontes
(Rio de janeiro (RJ), 1990)
Artista, coreógrafo e pesquisador. Formado em Artes pela Universidade Federal Fluminense e mestre em Artes (Estudos Contemporâneos das Artes) pela mesma instituição. Ele foi premiado com o ImPulsTanz – Prêmio de Jovens Coreógrafos 2022 e o Prêmio Artlink – 100 artistas de todo o mundo, 2022. Participou como um dos artistas da 35ª Bienal de São Paulo. Coreografou a obra “Variação” para o Balé da Cidade de São Paulo. Desde 2011, ele tem apresentado seu trabalho em galerias de arte e festivais nacionais e internacionais, incluindo a Universidade da Pensilvânia (EUA), My Wild Flag (Estocolmo), Pivô (São Paulo), Centro Cultural de Belém (Lisboa), Rua das Gaivotas 6 (Porto), Bienal Sesc de Dança, MITsp – Festival Internacional de Teatro de São Paulo, Festival Les Urbaines (Suíça), Arsenic – Centro de Arte Cênica Contemporânea (Suíça), Galeria Vermelho (São Paulo), Valongo Festival Internacional da Imagem (São Paulo), Museu de Arte do Rio de Janeiro (Rio de Janeiro), Programa Rumos Itaú Cultural 2021, Festival Programme Commun 2024, Arsenic (Suíça), Sâlmon Festival d’arts vives de (Barcelona), Zodiak — Center for New Dance (Finlândia), Panorama Festival (Rio de Janeiro), 5ª Mostra de Dança Itaú Cultural (São Paulo), Buddies In Bad Times Theatre, Toronto (Canadá), Mendes Wood DM (São Paulo) e residência no ImPulsTanz 2022 [8: tensão] Série de Jovens Coreógrafos (Áustria), La Becque (Suíça), Tanzhaus NRW (Alemanha), Programa de Pesquisa em Arte Pivô, Programa de Residência em Pesquisa de Artes do MAM Rio e Escola Livre de Artes – ELÃ, entre outros. Ele dirigiu o filme “Delirar o racial” em parceria com o artista Wallace Ferreira, uma obra encomendada pelo Programa Pivô Satélite em 2021. Baseado em pesquisa corporal, sua prática enfrenta o constante desafio de posicionar a coreografia e a racialidade para responder às condições onto-epistemológicas do pensamento moderno. Seu principal projeto consiste em analisar as conjunturas em que a violência.
Dona Romana
(Natividade (TO), 1941)
Dona Romana Pereira da Silva é mística e líder espiritual. Mora a 3 Km da zona urbana da cidade, local denominado Centro Bom Jesus de Nazaré, no sítio Jacuba. Semianalfabeta, aprendeu em casa, o básico para ler e escrever. Ela diz ouvir as vozes de três curadores que a orientam no que dizer ou fazer há mais de 35 anos. Romana vive em um sítio, onde ela construiu e estão espalhadas esculturas de pedra tapiocanga e cimento em forma de humanos e animais, pássaros, figuras estrelares e geométricas, com várias antenas entrelaçadas por fios. Também estão armazenados cadernos manuscritos, desenhos em cartolinas, livros, objetos, roupas, comida, grãos e muita água, que a mística diz que um dia serão utilizados por pessoas que chegarão necessitadas à região. Em 2007, Romana foi homenageada pelo poder público municipal com o diploma e a medalha de honra ao mérito “Pio Pinto de Cerqueira”. Com várias atividades diárias, Romana desenvolve além do seu lado espiritual/místico, se revela uma grande artista com suas obras.
Frederico Filippi
(São Carlos (SP), 1983)
Mestre em Artes Visuais na Escola de Comunicação e Artes da USP. Trabalha com mídias variadas, interessado na fronteira entre o natural e o construído, em especial atenção sobre a floresta e o continente sul americano. É colaborador há 8 anos no território da BR 319 no Amazonas. Principais exposições estão as individuais Cobra Grande (Museu de Arte Moderna de São Paulo, 2022), Terra de Ninguém (Galeria Leme, 2020), Cobra Criada, (Galeria Athena, 2019), Próprio Impróprio (Galeria Leme, 2016), Fogo na Babilônia (Pivô, 2015), as coletivas Obscura Luz, com curadoria de Kiki Mazuchelli, Ecologias Radicales, BIENALSUR, Com o ar pesado demais para respirar, curadoria de Lisette Lagnado, Caixa Preta (Fundação Iberê Camargo) curadoria de Fernanda Brenner, Eduardo Sterzi e Verônica Stigger, Bienal de Foto e Vídeo de Brandt (Dinamarca, 2016), Si no todas las armas, los cañones – Matadero Madrid, Até Aqui Tudo Bem (White Cube São Paulo). Residências e bolsas: Despacio, Costa Rica (2018), PIMASP, Museu de Arte de São Paulo (2016/17), Intervalo Escola, Amazonas (2017), KIOSKO, Bolívia (2015); El Ranchito – Matadero, Madri (2014), 5ª edição da Bolsa Pampulha, Belo Horizonte (2013/14), Centro de Investigaciones Artisticas, Buenos Aires (2013), Ateliê Aberto #6, Casa Tomada (2012) e Red Bull House of Art, SP (2011).
Gabriel Massan
(Nova Iguaçu (RJ), 1996)
Gabriel Massan é um artista multidisciplinar que vive e trabalha em Berlim. Combinando “storytelling” e “worldbuilding”, os cosmos que Massan cria, simulam e narram situações de desigualdade.
Emoldurado por uma prática conceitual que chama de arqueologia ficcional e trabalhando com animação 3D, escultura digital, jogos, som e instalações interativas, o artista desafia concepções distorcidas do chamado Terceiro Mundo enquanto investiga possibilidades de alteridade subversiva. As residências e prêmios selecionados incluem o Programa Arts Explora apoiado pela Cité Internationale Des Arts em Paris (2023), Dazed 100 (2022), Circa x Dazed (2021), Instituto Moreira Salles (2020) e ETOPIA – Center for Art & Technology (2019). Ele participou de comissões significativas com a Serpentine Arts Technologies (2022-3), a Bangkok Biennale (2022), a The Photographers; Gallery (2022) e o X Museum (2022). Massan apresentou palestras e conversas em instituições como La Biennale di Venezia, Art Basel Miami, DLD Conference, University College London, Royal College Of Arts e Institut Français. Suas exposições recentes incluem: “WORLDBUILDING: Gaming and Art in the Digital Age” (Julia Stoschek Collection, 2022; Centre Pompidou-Metz, 2023); Canon (Frieze No.9 Cork Street, 2022) e Possible Agreements; (Mendes Wood DM, 2022). Em 2023, Gabriel apresentou suas primeiras exposições individuais, começando com o projeto multipartes aclamado pela crítica Third World:The Bottom Dimension; na Serpentine Galleries, seguido por; Continuity Flaws na Outernet London.
Ivan Campos
(Rio Branco (AC), 1960)
Quando rabiscava seus desenhos em pano, lençóis ou guardanapos, cujas gravuras seriam cobertas com pintura por sua mãe, dona Gercina Braga Campos, já falecida, uma costureira e bordadeira de mão cheia, o hoje artista Ivan campos Moreira, de 62 anos, nem imaginava que ali começava sua principal profissão e atividade de um artista diferenciado e cujos quadros, na atualidade, ornam museus e coleções ao redor do mundo. Pinta a natureza e a exuberância da floresta amazônica com riqueza de detalhes. Seus quadros são tão detalhistas que algumas gravuras, de bichos e insetos, só são possíveis de serem admiradas com o uso de lupas.
Jonas Van & Juno B
(Jonas Van - Fortaleza (CE), 1989 | Juno B. - Fortaleza (CE), 1982)
Juno B. nasceu no Ceará, atualmente mora em São Paulo. Artista transdisciplinar não binário, incorpora vídeo, fotografia, 3D, texto e escultura em instalações imersivas. Em seu trabalho propõem experimentos, fabulações e diálogos baseados em discursos não hegemônicos e hipóteses de modos mútuos de estar no mundo. A sua prática transita entre a desobediência de género, mutações transespecíficas, conflitos tóxicos, migrações climáticas e paisagens adaptativas; tensionando as noções visíveis do humano e os limites entre estética, ética e política. Participaram das Residências Artísticas: Travessias Ocultas – Lastro in Campo Brasil-Bolívia (2017) / Materia Gris – La Paz, Bolívia (2017) / Zona de Contencioso – Ceará e Piauí, Brasil (2020), Belluard Bollwerk, Friboug, Suíça e Programa Pivô Pesquisa, São Paulo, Brasil (2021). Recentemente colaborou nos projetos: Museu Itamar Assumpção, plataforma Lastro.
Jonas Van é artista transnordestino e cozinheiro. A sua prática está inscrita entre a desobediência de gênero, linguagem e naturezas monstruosas, por meio de som-vídeo, instalações efêmeras e texto. Seu trabalho propõe narrativas ficcionais profundamente íntimas, fraturas linguísticas e temporais numa perspectiva anticolonial. Esteve em residência no México, Bolívia, Portugal, Espanha, Brasil e Suíça. Mestrando em artes visuais – CCC (estudos em Crítica, Curadoria e Cibernética) na HEAD, Genebra, Suíça.
Labô Young
(Belém (PA))
Labô Young é um artista paraense nascido em Icoaraci, distrito da cidade de Belém, que desenvolve, dentro das artes visuais/moda nacional e internacional, um trabalho que ecoa suas raízes da Amazônia brasileira. Uma pesquisa íntima que envolve suas experiências do viver e cotidiano em Icoaraci. Suas criações são movidas pelas histórias de encantaria amazônica, o rio e os materiais orgânicos que o inspiram desde a infância, materiais esses usados para a produção das peças que constrói até hoje, compreendendo assim a importância dos repasses de saberes e técnicas ancestrais na sua cultura e família.
Lucas Arruda
(São Paulo (SP), 1983)
O trabalho de Lucas Arruda se concentra com obstinação num tema bem definido no cânone da história da arte para abordar complexos estados mentais contemporâneos. Sua pesquisa se desenvolve fundamentalmente em torno da manifestação da paisagem, pensando e experimentando nossa capacidade de viver pela mediação da luz e do olhar.
Por meio de uma poderosa e coesa série de pinturas a óleo, e também de projeções de slides e instalações de luz, suas paisagens existem no ponto de tensão entre abstração e figuração, entre aparição e vazio. A cada lance de visão são demarcadas experiências num processo de construção e reconstrução da memória, como se a formulação de campos de cores tateasse o corpo imaterial das passagens temporais e das sensações vividas.
Nos movimentando acima e abaixo de linhas do horizonte, o artista nos põe diante de atmosferas carregadas com questões tão visuais quanto metafísicas. Entre o céu e a terra, o etéreo e o sólido, a imaginação e o terreno, uma contemplação meditativa encontra sua rotina ao acompanhar um interminável, e nem sempre claro, ciclo de sublimação e deposição da matéria.
Marcus Deusdedit
(Belo Horizonte (MG), 1997)
Graduado na Escola de Arquitetura da UFMG e mestrando pela FAUUSP, atua como artista visual produzindo na intersecção entre arte, arquitetura e design. Em sua pesquisa, explora possíveis distorções e deslocamentos estéticos dos códigos desses campos a partir de uma perspectiva negra e periférica e do exercício do remix em diferentes linguagens.
Fruto desta investigação é o | re-lab.xyz | abrigo digital e virtual para os experimentos em torno desse processo. Em sua trajetória, participou da residência artística 8ª Bolsa Pampulha, foi premiado pelo 4º Prêmio Décio Noviello de Artes Visuais e participou de uma série de exposições coletivas nos últimos anos. Atualmente têm desenvolvido experimentos entre objetos tridimensionais as mídias digitais em diversas escalas.
Maria Lira Marques
(Araçuaí (MG), 1945)
Filha de um sapateiro e de uma lavadeira, nasceu em Araçuaí, onde vive até hoje. Desenvolveu seu interesse por cerâmica e por trabalhos manuais diversos desde criança ao ver a sua mãe, Odília Borges Nogueira, construir presépios em barro cru. Mais tarde, aprendeu com sua vizinha, conhecida como Joana Poteira, técnicas de extração e cozimento do barro.
Realizou sua primeira exposição em 1975 no Sesc Pompeia, em São Paulo e, desde então, expôs em diversas instituições nacionais e internacionais na Bélgica, Holanda, Dinamarca, França e Estados Unidos. Sua obra é caracterizada pela integração de uma linguagem gráfica decorrente dos pigmentos naturais com a paisagem sertaneja. Desde a década de 1990, dedica-se ao corpo de trabalho conhecido como Bichos do Sertão, pinturas de animais imaginários que compõem um vasto bestiário formal.
Em seus mais de 40 anos como artista, Maria Lira coloca-se também como pesquisadora, ativista e divulgadora dos artistas e artesãos do Vale do Jequitinhonha, sobre o qual desenvolveu um longo trabalho em colaboração com o Frei Xico, frade holandês radicado no Brasil. Com ele, também esteve à frente do Coral Trovadores do Vale, cujo repertório era formado pelo cancioneiro da região. Em 2010, fundaram o Museu de Araçuaí, criado com o objetivo de abrigar um acervo de objetos e documentos que registram a religiosidade, os usos, costumes e ofícios que constituem a história de Araçuaí.
Sua obra foi estudada pela pesquisadora Lélia Coelho Frota, uma das principais autoridades em arte popular brasileira e, em 2007, sua trajetória foi homenageada em uma peça com seu nome dirigida por João das Neves. Realizou também exposições no Programa Sala do Artista Popular e no Museu Casa do Pontal, no Rio de Janeiro, e no Centro de Arte Popular, em Belo Horizonte. Em 2021, realizou a exposição Maria Lira Marques: Obras recentes na Bergamin & Gomide, atual Gomide&Co.
Marina Woisky
(São Paulo (SP), 1996)
Marina Woisky parte de imagens de objetos decorativos e de ornamentos com formas orgânicas como substrato para sua produção. Distorcidas, deslocadas e comprimidas pelas sucessivas transposições materiais e pela passagem do tempo, tais imagens são transformadas pela artista em animais e paisagens extraordinários e quiméricos, apresentados em obras que se posicionam no limiar entre a bi e a tridimensionalidade. Com isso, a artista aborda a representação, problema fundamental das artes e noções de gosto, assim como o próprio estatuto imagético na sociedade contemporânea.
Melissa de Oliveira
(Morro do Dendê (RJ), 2000)
Melissa Martins tem as lentes apontadas para o que acorre em grupo, o que ocorre ao seu redor, atenta à expressão cultural, atenta aos movimentos estéticos e recreacionais do Morro do Dendê, no Rio de Janeiro. MELISSA olha para a construção identitária e ali se percebe. O que é periférico para uns é central para ela.
Mestre Nado
(Olinda (PE), 1945)
Aguinaldo da Silva, conhecido artisticamente como MESTRE NADO, nasceu em Olinda, Pernambuco, no dia 08 de maio de 1945. Desde muito cedo sua vida foi ligada ao barro, hoje tem mais de 60 anos dedicados à criação com essa matéria. Mestre Nado, aluno e professor em seu ofício, repassa a lição assimilada com o tempo como uma missão de vida. Aos dez anos, já trabalhava em uma olaria, produzindo “quartinhas” (vasos que mantinham a água fresca). Até os 17 anos, passou por muitos ofícios: catador, batedor de barro, polidor de peças e oleiro, atividade que iniciou ainda nos anos 60. O declínio no uso das quartinhas indicou a hora de usar da criatividade para buscar novos conhecimentos e sobreviver.
Sua habilidade criativa com o barro o levou a cruzar caminhos com Thiago Amorim e Francisco Brennand, dois renomados ceramistas pernambucanos, com quem aperfeiçoou a técnica de queima em altas temperaturas e a criação de esculturas. Com os anos de estudo e experimentação criativa, Mestre Nado descobriu e desenvolveu esculturas que produziam sons ao serem sopradas. Aprofundou pesquisas com técnicas musicais que elevaram a sua obra a outros patamares criativos, desenvolvendo instrumentos harmônicos de sopro conhecidos como ocarinas e diversos instrumentos de percussão. Tornou-se músico e revelou-se compositor, tendo os instrumentos criados por ele mesmo como identidade artística. Seu trabalho ganhou notoriedade e reconhecimento além de Pernambuco, chegando a realizar apresentações com a Orquestra Sinfônica de São Paulo e a gravar seu primeiro CD em 2014, intitulado O Som do Barro. Teve instrumentos seus utilizados em shows de artistas consagrados como Naná Vasconcelos, Milton Nascimento, Ney Matogrosso, entre outros.
Tendo como inspiração principal os ritmos regionais e ícones da nossa cultura, Mestre Nado consegue extrair música, beleza e leveza utilizando-se dos quatro elementos básicos da natureza: a terra, o fogo, a água e o ar. Os três filhos e uma filha trabalham com ele e formam um grupo musical chamado O Som do Barro, que se apresenta em shows e oficinas de cerâmica e música, utilizando os instrumentos de sopro e percussão feitos por ele. Através de suas oficinas de repasse de seus saberes, o Mestre Nado criou a Orquestra Mestre Nado, formada por aprendizes. Estas oficinas ganharam notoriedade na comunidade onde mora e arredores por atrair o interesse de crianças e adolescentes para a confecção de instrumentos e a criação musical, além de servir como tecnologia social para o trabalho dos Centros de Referência da Assistência Social de Olinda (CRAS) em projeto voltado para o público de idosos e idosas participantes do Serviço de Convivência e Fortalecimento de Vínculos (SCFV), transformando-se em importante obra social e cultural. Pela enorme relevância de sua vida e obra, recebeu o título de Patrimônio Vivo de Pernambuco, além do Notório Saber em Cultura Popular. Atualmente, o Mestre Nado e sua família dedicam-se ao fortalecimento do INSTITUTO MESTRE NADO, criado para preservar o seu legado e oferecer oficinas, aulas-espetáculo, saraus e concertos da Orquestra Mestre Nado e onde também é comercializada a sua produção. O Instituto também sedia ações culturais para promover outros artistas como artesãos e músicos, além de outras linguagens culturais, e levar ao público uma mostra da rica diversidade cultural que nos identifica enquanto povo.
Noara Quintana
(Florianópolis (SC), 1986)
Noara Quintana é artista visual, vive e atua entre Florianópolis, SC, e Los Angeles, EUA. Sua pesquisa concentra-se na materialidade de objetos cotidianos e nos índices de histórias do Sul Global que carregam. Através de instalações e esculturas, seu trabalho aponta para trocas econômicas, formas arquitetônicas e narrativas contrárias ao legado de um imaginário colonial.
Participou de diversas exposições e residências, sendo em 2023 artista residente na Delfina Foundation pelo Instituto Inclusartiz, Londres, UK, “Lauréate 2020” do Institut Français na Cité Internationale des Arts, Paris, FR, e residente do Pivô Arte Pesquisa, São Paulo, SP, em 2021. E nos últimos anos integrou exposições como: Frestas – Trienal das Artes SESC “O rio é uma serpente”, Sorocaba, SP (2021); “For The Phoenix To Find Its Form In Us”, SAVVY Contemporary, Berlim, DE (2021); “Cultivo”, Galeria Marli Matsumoto, São Paulo, SP (2022); “From underwater mountains fire makes islands”, KADIST and PIVÔ, São Paulo, SP (2022); “The Children Have to Hear Another Story – Alanis Obomsawin”, Haus der Kulturen der Welt (HKW), Berlim, DE (2022), “Pays rêvé, pays reverse”, Cité Internationale des Arts, Paris, FR (2023), “Contra-Flecha: Arqueia mas não quebra”, Galeria Almeida & Dale, São Paulo (2023),“No Song Unsung” Brea Gallery, Los Angeles, EUA (2023), e de “Bubuia”, Bienal das Amazônias, Belém, PA (2023). Recentemente apresentou a exposição individual “Futuro Fóssil” no espaço Lanterna Mágica do Projeto Vênus, em São Paulo.
Paulo Nimer Pjota
(São José do Rio Preto (SP), 1988)
O trabalho de Paulo Nimer Pjota se desenvolve a partir da natureza de fenômenos originados coletivamente. Sua pesquisa e prática se concentram num estudo profundo sobre um tipo de iconografia popular que só pode se desenvolver por meio de processos complexos operados por incontáveis mãos. Podemos então pensar sua produção como a representação de um diálogo plural e agitado, cujos entendimentos estão sempre em transformação, percorrendo múltiplos fluxos de consciência.
O artista usa como suporte, em regra, grandes telas, sacos e chapas de metal. A maior parte desses materiais são encontrados em depósitos de dejetos para então passarem por processos de negociação e deslocamento. As peças escolhidas, naturalmente, chegam com as inscrições de outros tempos e usos, de maneira que criam um primeiro terreno — gráfico e espiritual — para o que irá ganhar forma nessas superfícies. A partir daí cria fábulas globais na tensão entre a liberdade da escolha aleatória e a precisão de uma meticulosa composição, conjugando representações numa constelação de corpos suspensos. É quando a história da arte vai lado a lado com cultura de massa; cânones universais com banalidades cotidianas; símbolos universais com temas regionais.
Seu interesse é, sobretudo, pelos mecanismos e processos que produzem, editam e difundem manifestações humanas numa época de internet e ultra comunicação. Por meio de ritmo, rima e repetição vêm à tona imagens que indexam as percepções comuns de um planeta globalizado e que, consequentemente, expõem suas profundas desigualdades. Com efeito, torna-se possível questionar a forma como formulamos informação e distribuímos nossos afetos, reconfigurando nossas sensibilidades para com o que nos cerca e promovendo possibilidades de interação social antes impensáveis.
Paulo Pires de Oliveira
(Poxoréo (MT), 1972)
Paulo Pires de Oliveira é natural de Poxoréo, Mato Grosso, Brasil, 1972. Escultor, desenhistas e pintor, reside em Rondonópolis, também em Mato Grosso, desde 1990. De família humilde, o escultor, aos oito anos de idade iniciou de maneira lúdica e autodidata a confecção de brinquedos em madeira, e aos 14 anos começou a esculpir e comercializar pequenas peças de madeira. “Morei em Rondônia na região de Rolim de Moura de 08 a 17 anos, foram nove anos e ainda criança comecei a esculpir em madeira”.
Paulo Pires produz trabalhos em pedras de arenito colhidas nos vales dos municípios de Rondonópolis, Pedra Preta e região, de onde traz a duríssima pedra-ferro. As cores do arenito variam entre o marrom avermelhado, vermelho-amarelado e branco, sendo a pedra-ferro mais escura. Desenvolveu uma técnica própria, na qual o arenito é milimetricamente esculpido.
Ao longo de sua trajetória, Paulo Pires expôs individualmente suas obras em séries temáticas: Desejos, Alma, Idade, Amor e Sociedade de Pedra. São obras densas, cheias de movimentação e volumes das formas arredondadas que revelam sensações barrocas. Figuras que se enroscam, eróticas, evocativas, pequenos fragmentos de templos que nos remetem a memória ancestral arcaica.
“Eu considero uma necessidade ter chegado à Pedra. Acontece que em Mato Grosso muitos escultores trabalham com madeira e eu estava me achando muito repetitivo e falei pra mim mesmo: tenho que sair disso, preciso criar outras coisas. Como gosto muito de escrever fui dar umas andadas no mato e nessas andadas encontrei uma bela cachoeira que fica perto de Cuiabá no Distrito de Nossa Senhora Guia e então resolvi que ali seria um ótimo reduto para minhas escritas e lá tem muita pedra e comecei a ter contato com lindas pedras e comecei a esculpir, fiquei um ano esculpindo.”
Rafael RG
(Guarulhos (SP), 1986)
Rafael RG (1986) Vive e trabalha entre Guarulhos (SP), São Luís do Maranhão (MA) Recife (PE). É formado em Artes Visuais pela Belas Artes de São Paulo. (Bolsista PROUNI – 2010). Participou de mostras e festivais em cidades do Brasil e em outros países. Recebeu, entre outras premiações, o 1º Prêmio Foco ArtRio, o Prêmio Honra ao Mérito Arte e Patrimônio/ IPHAN, o Prêmio aquisição do Centro Cultural São Paulo, Bolsa Iberê Camargo para residência no Künstlerhaus Bremen (Alemanha), Bolsa Pampulha para residência no Museu de Arte da Pampulha (MG), entre suas residências recentes estão Gasworks em Londres (2018) Black Rock Senegal em Dakar (2019), Triangle France – Astérides em Marseile (2020) e YBYTU (2021) e Residência artística da FAAP (2022) ambas em São Paulo, The 55 project, Miami (2022) e Palais do Tokyo em Paris (2023).
Em sua prática artística, RG costuma trazer duas fontes para construção de seus trabalhos: uma documental e outra afetiva, em geral por meio do uso de documentos garimpados em arquivos institucionais ou pessoais associados a narrativas que podem envolver sua pessoa ou um alter ego. A interação entre essas territorialidades resulta em obras que quase sempre se aproximam de uma ficção, ou de uma noção tensa de ficcionalidade. Relações afetivas e sexuais e suas implicações políticas, e questões de identidade racial têm sido suas áreas de interesse atuais. Essas pesquisas geralmente se desdobram em workshops, instalações, textos performativos, publicações e objetos.
Rafaela Kennedy
(Manaus, Amazonas, Brasil, 1994)
Rafaella Kennedy nasceu em Manaus, Amazonas, Brasil (1994). A artista visual trabalha com fotografia, moda e performance e utiliza essas linguagens para abordar a relação entre corpo e imagem. Rafaella Kennedy propõe em seus trabalhos novos imaginários para as populações originárias e negras que desafiam e tencionam o apagamento sofrido por esses grupos. Entre suas exposições, destacamos suas participações nas coletivas Invenção dos Reinos, Oficina Francisco Brennand, Recife, Pernambuco (2023); e 38º Panorama da Arte Brasileira: Mil graus, MAM São Paulo (2024). Suas obras também integram coleções de importantes museus, como MAM São Paulo, Museu Afro Brasil, São Paulo e Fundación Casa Wabi, Puerto Escondido, México.
Rebeca Carapiá
(Salvador (BA), 1988)
Rebeca Carapiá, artista visual, mestranda pela Universidade Federal da Bahia, nasceu na Cidade Baixa, em Salvador. A artista se interessa pelas relações produzidas entre a linguagem, o conflito, o corpo e o território, onde cria e organiza um conjunto de práticas e reflexões através de diferentes plataformas de exibição, formação e experimentação artística. Através de esculturas, cobre sobre tela, desenhos, instalações, gravuras, textos e objetos, sua pesquisa busca criar uma cosmologia em torno dos conflitos das normas da linguagem e do corpo, além de ampliar um debate geopolítico que envolve memória, racismo ambiental, economias da precariedade, tecnologias ancestrais, dissidências sexuais e de gênero e as relações de poder entre o discurso e a palavra.
Questionando sobre como falar da diferença sem explicá-la e performando a desconstrução das geografias do feminino, em 2020 abriu seus cadernos em sua primeira exposição individual,”Como colocar ar nas palavras”, que aconteceu na Galeria Leme, em São Paulo. A artista, que trabalha a escrita cotidiana como prática de criação, teve seus textos publicados em 2022 pela editora Francesa Brook em “Textes à lire à voix haute” e em 2023 o livro de artista “Dois meses de permanência” organizado pela residência Ybytu em São Paulo. Carapiá ainda, coordena o espaço independente e ateliê Irê Arte, praia e pesquisa, onde recebe artistas com diferentes interesses, voltado para o desenvolvimento de práticas, pesquisas e processos de formação em arte contemporânea.
Foto: Adriano Machado
Solange Pessoa
(Ferros (MG), 1961)
Solange Pessoa é mineira, lugar alto do barroco colonial hoje uma força industrial ‘graças’ às suas atividades de extração de ferro. O mundo natural, parte central da sua prolífica obra, encontra-se tanto nos temas representados como no processo criativo, especialmente com materiais encontrados na quinta da sua família. A matéria orgânica (terra, musgo, couro, cera, penas, cabelos, sangue, gordura…) torna-se um meio cuja evolução natural transforma as obras que compõem – cheios de vida, crescem, e às vezes caem, morrendo ao ritmo do humano reinos animal e vegetal.
O seu trabalho sugere um colapso temporal, entre o presente e um passado distante, tendo em comum a libertação de energias primordiais. Para Solange Pessoa, cada fenômeno material tem uma forma de agenciamento, numa leitura animista do mundo. Suas esculturas em pedra-sabão evocam formas ancestrais (espirais, fósseis) ou interiores corpóreos (úteros, entranhas). Comunicam-se com a instalação monumental Catedral (1990-2003). Suspenso e ancorado no solo, evoca cavalos fantasmagóricos, memórias distantes da colonização.
Tropa do Guriloko
(Rio de Janeiro (RJ), 2023)
A turma de Gorilas GURILOUKO surgiu da iniciativa de um grupo de amigos de um sub-bairro local chamado Bairro Iracema localizado no bairro de Campo Grande Zona Oeste do Rio de Janeiro. Nosso lema é paz no Carnaval, nos fantasiamos para trazer alegria as crianças e realizar aquele sonho de sair fantasiado no Carnaval de rua. Temos apenas 2 anos de existência e iremos ano que vem para o terceiro e acreditando que dias melhores virão. Nossas fantasias são todas artesanais criadas pelo grupo através de fitas plásticas e trançadas nas roupas dando volume e magnitude a cada gorila. Toda criação é própria dando alusão a um Gorila de verdade.
Nosso primeiro gorila foi da cor preta e o segundo agora foi o amarelo em homenagem a um amigo que morreu de câncer no estômago e como seu último gorila que ele usou no carnaval foi amarelo, prestamos essa homenagem ao amigo de apelido Urso. Fizemos uma mistura de gorila com urso e ficou incrível. Nosso novo tema será em alusão ao Filme King Kong para o ano de 2025. Vem mais coisas boas por aí…
Zahỳ Tentehar
(Reserva indígena Cana Brava ( MA), 1989)
Zahy Tentehar é uma mulher indígena, multiartista, nascida na aldeia Colônia, na reserva indígena Cana Brava, no Maranhão. Filha da pajé Elzira, e de Seu Quinca, mestiço. Do povo Tenetehara-Guajajara, tem o Ze’eng eté, dialeto do tronco tupi-guarani, como sua primeira língua. Em 2010, mudou-se para o Rio de Janeiro, onde tornou-se atriz e ativista. Na cidade, ela foi uma das líderes da aldeia Maracanã, ocupada de 2006 a 2013 por indígenas que reivindicavam a revitalização e o reconhecimento histórico do prédio onde havia sido o Museu do Índio.
Na televisão, trabalhou na minissérie “Dois Irmãos”, da TV Globo; no cinema, participou do filme “Não devore meu coração” e, no teatro, atuou em “Macunaíma – Uma rapsódia musical”. Seu trabalho mais recente como atriz foi em “Guerra em Iperoig” (2020), da Companhia de Teatro Mundana. Hoje, está em processo como co-diretora em uma adaptação de “Macunaíma” para o cinema.
Foto: Divulgação TV Globo/Manoella Mello
Zimar
(Matinha (MA), 1959)
Euzimar Meireles Gomes nasceu em 18 de maio de 1959, em Cutia, povoado de Matinha, no interior do Maranhão. Filho de Joana Meirelles e de José Carneiro Gomes. Trabalha como lavrador durante o ano e no período junino brinca de Cazumba na turma de João de Pixilau, chamada Turma da Sede, no próprio município de Matinha, baixada maranhense. Além de brincar, dedica-se a criar máscaras, caretas que usa e faz para outros. Também vende por encomenda para pessoas de fora e suas máscaras fazem parte de coleções e de museus de arte. “Eu ia para a boiada e só olhava para os Cazumba. Aí fui encasquetando com os Cazumbas e me desafiei a fazer uma careta para mim. Ao invés de fazer uma, fiz duas. Daí em diante não parei.” Zimar é dedicado e cuidadoso. Espírito inquieto, desenvolveu estilo próprio, o que faz suas máscaras serem especiais, apresentando grande qualidade estética e sofisticação. Cheias de detalhes, inspiram-se nas feições de bichos medonhos, que causam ao mesmo tempo medo e admiração. A base da máscara é esculpida na madeira. Na caracterização usa materiais orgânicos, para dar mais veracidade ao personagem: se for um cavalo, usa crina; se for um porco, usa dentes de verdade.
podcast
O MAM apresenta seu primeiro podcast original: a série em áudio “Mil graus”.
O podcast foi batizado com o mesmo título da exposição, Mil graus, e traz a ideia de um calor-limite, conceito proposto pela curadoria do 38º Panorama para aludir à uma temperatura em que tudo derrete, desmancha e se transforma.
A série é uma forma de aprofundar e ampliar discussões essenciais da exposição. Ao longo de seis episódios, os ouvintes podem conhecer mais sobre o 38º Panorama do MAM, bem como histórias e curiosidades sobre alguns dos coletivos e artistas que participam da exposição.
O podcast Mil graus está disponível nos principais tocadores: Spotify, Deezer, Apple Podcast e YouTube.
Ficha técnica:
Mil graus é um podcast original do Museu de Arte Moderna de São Paulo, com patrocínio do Nubank e da EMS através da Lei federal de incentivo à cultura, Ministério da Cultura, Governo Federal, Brasil União e Reconstrução Direção e produção executiva: Trovão Mídia Concepção: Ane Tavares, Ariana Nuala, Germano Dushá e Thiago de Paula Souza Apresentação: Adriana Couto Pesquisa e roteiro: Flavia Martin Edição, mixagem e montagem de som: Pedro Vituri Trilha sonora original: José Hesse Identidade visual: Raul Luna Design: Paulo Macedo