Frederico Filippi: Cobra Grande


Abertura: 10 de dezembro, 2022
Horário: 10h

“A história florestal corretamente entendida é, em todo o planeta, uma história de exploração e destruição.”
Warren Dean

 

O “correntão” é uma técnica de desmatamento para abertura de grandes clareiras na floresta. Usa-se uma corrente naval presa a dois tratores que arrancam a mata nativa, desenraizando plantas de médio porte para ocupação agrícola. Cria-se um vasto campo retangular, que passa a ser ocupado pela monótona e homogênea monocultura ou o pasto para gado.

A obra Cobra Grande reproduz esse instrumento peculiar brasileiro, uma tecnologia que rivaliza com o primitivo fogo. A corrente forma um arco que simula a constrição do empuxo dos tratores e mimetiza a figura geográfica conhecida como “arco do desmatamento”. Este último se refere à forma que demarca o território no qual há uma ação contínua de redução da floresta amazônica e que cruza mais de cinco estados brasileiros.

A retirada da floresta é um processo relacionado à própria ocupação humana e da agricultura, mas foi a partir da exploração da monocultura desde os tempos coloniais que temos o avanço indiscriminado sobre as florestas no território brasileiro, processo que se encaminha para uma tragédia de proporções globais. A produção agroexportadora e extrativista chegou a tal ponto que formou-se esse grande espaço gráfico no mapa, que distingue o movimento de compressão geográfica na região sudeste e sudoeste da floresta amazônica em direção ao epicentro.

Cobra Grande representa esse músculo que comprime a floresta e quer arrancá-la do chão na força da civilização de moldes arcaicos. A corrente feita de barro, aqui, é reprodução daquela de ferro, como no discurso em que as palavras se repetem num outro contexto; o barro é alusão, pois sua essência é outra, é a da cultura que carrega na sua verossimilhança um arbítrio; interferir o mínimo e devolver à terra o instrumento da violência contra a biodiversidade. O barro tenderá a se dissolver e não afetará o jardim, nem o solo, apenas servirá de instrumento indutor do contexto histórico da floresta e analítico do movimento social.

Os elos formados por barro, feitos de adobe, uma antiga técnica usada para construir casas no sertão brasileiro, aqui, no Jardim de Esculturas do mam – que é composto por esculturas no geral feitas em aço, pedra ou concreto – confere situação crítica à perenidade do museu: a dissolução do arco é o fim da distensão de sua forma e, ao mesmo tempo, da aculturação de toda a floresta. A linha divisória carrega, portanto, o paradoxo da invasão da cultura em direção ao considerado selvagem, relembrando o ponto de vista civilizatório das instituições sociais e culturais, e sua percepção da dimensão trágica desse movimento expropriatório.

Frederico Filippi põe em movimento o anseio contemporâneo numa busca ética de manifestação, na qual a violência em curso se projeta como negativo, ou seja, aponta para aquilo que não é mais suportável. Assim, o discurso predatório da floresta como espaço vacante ou mero recurso não pode ser uma miragem da foto no satélite, mas composto por elos de correntes reais.

Pedro Nery
novembro de 2022
Frederico Filippi. Cobra Grande, 2022. Barro e palha. 6000 cm (largura). Foto: Bruno Leão (EstúdioEmObra)

 

ficha técnica

realização
Museu de Arte Moderna de São Paulo

projeto técnico
Paulo Masson

execução
Frederico Filippi
Edward CNC
André Inae
Marcio Ficko
Coletivo 1417

revisão de texto
Paulo Futagawa

foto e tratamento de imagem
Bruno Leão (EstúdioEmObra)

 

Sobre Frederico Filippi:

Artista visual, São Paulo. Mestrando em Artes Visuais na Escola de Comunicação e Artes da USP. Trabalha com mídias variadas, interessado na fronteira entre o natural e o construído, floresta e estrada, barro e asfalto. Atua nos coletivos Birico e UCDM e é colaborador da Casa do Rio no território da BR 319 no Amazonas.

Principais exposições estão as individuais Terra de Ninguém (Galeria Leme, 2020), Cobra Criada, (Galeria Athena, 2019), Próprio Impróprio (Galeria Leme, 2016), Fogo na Babilônia (Pivô, 2015), as coletivas Obscura Luz, com curadoria de Kiki Mazuchelli, Ecologias Radicales, BIENALSUR, Com o ar pesado demais para respirar, curadoria de Lisette Lagnado, Caixa Preta (Fundação Iberê Camargo) curadoria de Fernanda Brenner, Eduardo Sterzi e Verônica Stigger, Bienal de Foto e Vídeo de Brandt (Dinamarca, 2016), Si no todas las armas, los cañones – Matadero Madrid, Até Aqui Tudo Bem (White Cube São Paulo).

Residências e bolsas: Despacio, Costa Rica (2018), PIMASP, Museu de Arte de São Paulo (2016/17), Intervalo Escola, Amazonas (2017), KIOSKO, Bolívia (2015); El Ranchito – Matadero, Madri (2014), 5ª edição da Bolsa Pampulha, Belo Horizonte (2013/14), Centro de Investigaciones Artisticas, Buenos Aires (2013), Ateliê Aberto #6, Casa Tomada (2012) e Red Bull House of Art, SP (2011).