Como parte da Temporada França-Brasil 2025, em especial da programação francesa no Brasil, o Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM São Paulo) planejou realizar o projeto Limiar, de Tarik Kiswanson, na Sala de Vidro do museu. O espaço se integra à marquise do Parque Ibirapuera e ao Jardim de Esculturas do MAM, lugar de bastante visibilidade mesmo para quem não entra no prédio.
Os trabalhos de Tarik Kiswanson, em geral, são pensados para lugares específicos, ou seja, não são apenas esculturas que ocupam uma sala, mas que se integram ao ambiente e são indissociáveis do local em que estão instaladas. Inicialmente, o artista havia elaborado um projeto que pressupunha uma situação de plena transparência e de permeabilidade entre o dentro e o fora. Com o atraso da reforma da marquise do parque e a impossibilidade de apresentar o trabalho na Sala de Vidro, o MAM São Paulo estabeleceu uma parceria com o Instituto Tomie Ohtake para garantir sua realização.
A obra, que seria vista dentro da marquise projetada por Oscar Niemeyer, foi reimaginada, com êxito, para a sala circular do prédio de Ruy Ohtake. O artista teve um curto período para rever seu projeto, e a situação de plena visibilidade se transformou numa espécie de fresta, de um olhar a partir de um ângulo determinado, estreito, um recorte que traz um mistério. O trabalho de Tarik Kiswanson não se entrega de imediato, mas exige um percurso na sala circular, um corpo que caminha até encontrá-lo.
A noção de corpo é relevante para a relação que estabelecemos com a obra, já que ela alude a um corpo que não está lá. Objetos presentes na sala nos lembram corpos, carregam memórias deles, já que eles estão ausentes, mas ainda assim presentificados pelas formas que o artista projeta. O trabalho fala mais à nossa sensibilidade do que ao intelecto, ou seja, não se trata de compreendê-lo, de saber que a cadeira veio de repartições de imigração do Brasil, mas de perceber o que está diante de nossos olhos – o visível e, também, o invisível a que ele alude.
É como se a obra suspendesse o fluxo do tempo, que deixou de ser cronológico, com início, meio e fim. Tudo se passa como se o antes e o depois estivessem condensados nas formas ovais, em casulos brancos opacos que transformam o seu entorno em espécies de ninhos. A forma oval – além da ideia de fecundidade, de promessa do que ainda virá, da vida em potência – traz o sentido de origem, de procedência e transformação. Aparentando ser frágil, ela aponta para o que ainda não é, mas que pode vir a ser.
O ambiente apresenta móveis religiosos de madeira, de origem belga ou holandesa, do século 19. No entanto, o objeto está inacessível ao corpo e fora de seu contexto litúrgico – ele é colocado em um espaço secular que evoca o silêncio. Mas a ausência de ruído não equivale ao vazio. Ao contrário, é como se esse banco nobre, que atravessou o oceano e paira suspenso no alto da sala, contivesse não apenas parte da história colonial, mas também trouxesse o seu oposto: a possibilidade de uma reflexão crítica sobre o processo de colonização. O silêncio da obra, mais do que contemplativo, ecoa as vozes de todos os povos que foram catequizados, todas as crenças que foram proibidas e todos os corpos que ali repousaram, espontaneamente ou pela força. A obra de Tarik Kiswanson aponta para aquilo que não pode ser visto nem ouvido, mas que pode ser sentido nos corpos que se colocam diante dela.
Cauê Alves Curador
Acessibilidade
Disponibilização de catálogos em versão digital que pode ser processada por sistemas de leitura e ampliação de tela (clique aqui para acessar as publicações);
Recursos de audioguia com audiodescrição e videoguia em Libras com legendas em português nas exposições;
Ferramenta de Libras digital;
Utilização de legendas descritivas e texto alternativo nas postagens nas redes sociais, com a hashtag #DescriçãoDoVideo e hashtag #PraTodoMundoVer;
Disponibilização de materiais táteis e multissensoriais das obras do acervo
Além das medidas acima, é possível agendar com o Educativo visitas mediadas gratuitas com educadores para público surdo, com deficiência visual, com deficiência física, intelectual e usuários de equipamentos de saúde mental e emsituação de vulnerabilidade social e horários alternativos planejados para atendimento de público dentro do Transtorno do Espectro Autista de acordo com as características distintas de cada sujeito pensadas em relação a: socialização, sensorialidade, comunicabilidade e autonomia. solicitar pelo e-mail educativo@mam.org.br.
Intérprete de libras e audiodescrição ao vivo nas atividades quando solicitado com até 48h de antecedência solicitar pelo e-mail educativo@mam.org.br.
Em certas atividades, poderão ser oferecidas medidas adicionais de acessibilidade, que estarão indicadas nos materiais de divulgação.
Vista traseira da estrutura expositiva da obra “Limiar” (2025), de Tarik Kiswanson. Exposição realizada no Instituto Tomie Ohtake. Foto: Everton Ballardin
Vista lateral da estrutura expositiva da obra “Limiar” (2025), de Tarik Kiswanson. Exposição realizada no Instituto Tomie Ohtake. Foto: Everton Ballardin
Vista frontal da obra “Limiar” (2025), de Tarik Kiswanson. Exposição realizada no Instituto Tomie Ohtake. Foto: Ana Pigosso
Vista frontal da obra “Limiar” (2025), de Tarik Kiswanson. Exposição realizada no Instituto Tomie Ohtake. Foto: Ana Pigosso
Vista frontal da obra “Limiar” (2025), de Tarik Kiswanson. Exposição realizada no Instituto Tomie Ohtake. Foto: Ana Pigosso
Vista frontal da obra “Limiar” (2025), de Tarik Kiswanson. Exposição realizada no Instituto Tomie Ohtake. Foto: Ana Pigosso
Vista lateral da estrutura expositiva da obra “Limiar” (2025), de Tarik Kiswanson. Exposição realizada no Instituto Tomie Ohtake. Foto: Everton Ballardin
Vista lateral da estrutura expositiva da obra “Limiar” (2025), de Tarik Kiswanson. Exposição realizada no Instituto Tomie Ohtake. Foto: Everton Ballardin
Vista traseira da estrutura expositiva da obra “Limiar” (2025), de Tarik Kiswanson. Exposição realizada no Instituto Tomie Ohtake. Foto: Everton Ballardin
Vista lateral da estrutura expositiva da obra “Limiar” (2025), de Tarik Kiswanson. Exposição realizada no Instituto Tomie Ohtake. Foto: Everton Ballardin
Vista frontal da obra “Limiar” (2025), de Tarik Kiswanson. Exposição realizada no Instituto Tomie Ohtake. Foto: Ana Pigosso
Vista frontal da obra “Limiar” (2025), de Tarik Kiswanson. Exposição realizada no Instituto Tomie Ohtake. Foto: Ana Pigosso
Vista frontal da obra “Limiar” (2025), de Tarik Kiswanson. Exposição realizada no Instituto Tomie Ohtake. Foto: Ana Pigosso
Vista frontal da obra “Limiar” (2025), de Tarik Kiswanson. Exposição realizada no Instituto Tomie Ohtake. Foto: Ana Pigosso
Vista lateral da estrutura expositiva da obra “Limiar” (2025), de Tarik Kiswanson. Exposição realizada no Instituto Tomie Ohtake. Foto: Everton Ballardin
Vista lateral da estrutura expositiva da obra “Limiar” (2025), de Tarik Kiswanson. Exposição realizada no Instituto Tomie Ohtake. Foto: Everton Ballardin
curadoria
Cauê Alves
É mestre e doutor em Filosofia pela FFLCH-USP. Professor do Departamento de Artes da FAFICLA-PUC-SP, é curador-chefe do Museu de Arte Moderna de São Paulo e coordenador do grupo de pesquisa em História da Arte, Crítica e Curadoria (CNPq). Publicou diversos textos sobre arte, entre eles no catálogo Mira Schendel (Museu de Arte Contemporânea de Serralves, Pinacoteca de São Paulo e Tate Modern, 2013). Foi curador-chefe do Museu Brasileiro da Escultura e Ecologia (MuBE, 2016-2020), curador assistente do Pavilhão Brasileiro na 56ª Bienal de Veneza (2015) e curador adjunto da 8ª Bienal do Mercosul (2011).
Paulo Miyada
Curador e pesquisador de arte contemporânea, dedica-se a projetos que contribuam tanto com visadas mais amplas e precisas da história da arte quanto com a reflexão crítica e desejante do tempo presente. Comprometido com o diálogo com artistas, preza igualmente pelo amadurecimento das instituições como instâncias de relevância pública e social, assim como pelo acolhimento dos públicos como sujeitos sensíveis e pensantes com interesses que transbordam o juízo de valor. Com graduação e mestrado pela FAU-USP, atua hoje como diretor artístico do Instituto Tomie Ohtake e curador adjunto do Centre Pompidou. Foi curador adjunto da 34ª Bienal de São Paulo (2020-21) e assistente de curadoria da 29ª Bienal de São Paulo (2010), além de ter organizado o livro “Bienal de São Paulo desde 1951” (2022). Entre suas curadorias, destacam-se “AI-5 50 anos – Ainda não terminou de acabar” (2018); “Anna Maria Maiolino – PSSSIIIUUU…” (2022); “Ensaios para o Museu das Origens” (2023); “Mira Schendel – Esperar que a palavra se forme” (2024) e “Sonia Gomes – Barroco, mesmo” (2025). Suas publicações foram indicadas diversas vezes para o prêmio Jabuti, incluindo a premiação na categoria Livro de Arte em 2020. Atualmente organiza a mostra “A TERRA O FOGO A ÁGUA E OS VENTOS – Por um Museu da Errância com Édouard Glissant”.
artista
Tarik Kiswanson
(Halmstad, Suécia, 1986 – vive e trabalha em Paris, França)
Por mais de uma década, Tarik Kiswanson tem explorado noções de desenraizamento, metamorfose e memória por meio de sua prática artística interdisciplinar. Um legado de deslocamento e transformação permeia suas obras e é indispensável tanto para sua forma quanto para os modos de percepção que produzem. Embora preserve uma dimensão íntima e pessoal, seu trabalho dialoga com questões universais e com histórias sociais e coletivas de ruptura, perda e regeneração. O conjunto de sua obra pode ser compreendido como uma cosmologia de famílias conceituais interligadas, cada uma explorando variações de temas como refração, multiplicação, desintegração, levitação e polifonia por meio de uma linguagem própria.
Tarik Kiswanson descende de uma família palestina exilada de Jerusalém, primeiro para Trípoli e depois para Amã, antes de finalmente se estabelecer em Halmstad, Suécia, onde ele nasceu em 1986. Kiswanson passou dez anos em Londres, onde estudou arte, antes de se mudar para Paris, cidade onde vive e trabalha desde 2010. É mestre pela École Nationale Supérieure des Beaux-Arts de Paris (2014) e bacharel pela Central Saint Martins – University of the Arts London (2010).
Tarik Kiswanson recebeu o Prêmio Marcel Duchamp em 2023, no Centre Pompidou. Sua obra tem sido tema de diversas exposições individuais em instituições, mais recentemente no Museu de Arte Moderna de São Paulo (2025), Fundação Iberê Camargo (2025), Kunsthalle Portikus (2024), Oakville Galleries (2024), Bonniers Konsthall (2023), Salzburger Kunstverein (2023), Museo Tamayo (2023), M HKA – Museum of Contemporary Art Antwerp (2022) e Carré d’Art – Musée d’art contemporain (2021). Ele participou também de exposições coletivas e bienais em instituições como Centre Pompidou, Kunsthalle Münster, Bienal de Arte Contemporânea de Gotemburgo, Bienal de Lyon, Performa Biennial e Mudam.
serviço
Exposição:
Tarik Kiswanson: Limiar
Local:
Instituto Tomie Ohtake
Curadoria:
Cauê Alves e Paulo Miyada
Período expositivo:
de 3 de setembro de 2025 a 25 de janeiro de 2026
Endereço:
Rua Dos Coropés, 88 – Pinheiros – São Paulo – SP
Entrada gratuita
galeria de imagens
museu de arte moderna de são paulo
A sede do MAM está temporariamente fechada em virtude da reforma da marquise do Parque Ibirapuera.