Natureza Franciscana 27/02/2016 - 05/06/2016


Inspirada no Cântico das Criaturas, de Francisco de Assis, mostra apresenta obras de artistas que utilizam elementos da natureza numa relação colaborativa

A partir de 27 de fevereiro, o MAM apresenta a exposição Natureza franciscana, que oferece uma noção contemporânea da relação colaborativa entre o ser humano e a natureza. Com curadoria de Felipe Chaimovich, a mostra é organizada a partir das estrofes doCântico das Criaturas, canção escrita por Francisco de Assis, provavelmente entre 1220 e 1226, reconhecida como texto precursor das questões referentes à ecologia.

Para contemplar a linha de arte e ecologia, o curador selecionou artistas que utilizam elementos da natureza em suas produções, reunindo 18 obras da coleção do museu somadas a 19 empréstimos, totalizando 37 trabalhos que são exibidos em diferentes suportes como fotografia, desenho, gravura, vídeo, livro de artista, instalação, obra sonora, objeto, escultura e bordado. “As obras originam-se de relações com os elementos descritos no Cântico: sol, estrelas, ar, água, fogo, terra, doenças e atribulações e, por fim, a morte”, explica Chaimovich, estudioso da obra de Francisco de Assis há 15 anos.

Sobre a exposição

Dividida conforme os elementos citados na canção Cântico das Criaturas, de Francisco de Assis, a mostra começa com o solrepresentado pela fotografia em cores Lâmpada (2002), da artista Lucia Koch, ao lado das fotografias em preto e branco The celebration of light (1991), de Marcelo Zocchio, e dos 12 livros da série I got up (1968-1979), do japonês On Kawara.

O elemento água é tematizado pelas fotografias A line in the arctic #1 e A line in the arctic #8 (2012), do paulistano Marcelo Moscheta, e pelas obras relacionados ao projeto Coletas, da artista multimídia Brígida Baltar, que incluem imagens da série A coleta da neblina(1998-2005), cinco desenhos de nanquim sobre papel (2004), a escultura de vidro A coleta do Orvalho (2001) e o vídeo Coletas (1998-2005).

Em contraponto, o fogo é simbolizado pelo vídeo Homenagem a W. Turner (2002), de Thiago Rocha Pitta, e pelos vestígios de fumaça sobre acrílico e sobre papel feitos pela escultora e desenhista Shirley Paes Leme. O elemento ar fica a cargo da escultura Venus Bleue,do artista francês Yves Klein. As estrelas são apresentadas por meio de sete fotografias do alemão Wolfgang Tillmans. Representando a terra, são expostas 30 caixas de papelão cheias de folhas e galhos de árvore embalados em plástico, papelão e fotografias em cores, instalação feita em 1975, por Sérgio Porto, além do relevo em papel artesanal (1981), de Frans Krajcberg.

As doenças e atribulações são tematizadas pela instalação Dis-placement (1996-7), de Paulo Lima Buenoz: numa sala com mobiliário, frascos de remédio, rosas, lona, giz e tinta, o artista demonstra os caminhos percorridos por ele para alcançar e tomar todos os remédios para combater os efeitos da Aids, antes do surgimento dos coquetéis anti-HIV. A artista Nazareth Pacheco exibe série de fotografias em preto e branco, de 1993, que mostram a malformação congênita do lábio leporino, dentes, raio-x e objeto de gesso.

Por fim, a morte é representada pelo último tecido bordado por José Leonilson antes de falecer, em 1993. Permeando a exposição, a instalação sonora Tudo aqui (2015), da artista Chiara Banfi, alcança todo o espaço expositivo e abrange todos os elementos representados.

 

CÂNTICO DAS CRIATURAS

Altíssimo, onipotente, bom Senhor,
teus são o louvor, a glória e a honra e toda benção.
A ti só, Altíssimo, essas coisas
e nenhum homem é digno de te nomear.

 

Louvado sejas, meu Senhor, com todas as tuas criaturas,
especialmente dom irmão sol,
que nos dá o dia e nos ilumina por ele.
E ele é belo e radiante com grande esplendor:
de ti, Altíssimo, ele traz significação.

 

Louvado sejas, meu Senhor, pela irmã lua e pelas estrelas:
no céu tu as formaste claras e preciosas e belas.

 

Louvado sejas, meu Senhor, pelo irmão vento
e pelo ar e as nuvens e o tempo claro e todos os tempos,
pelos quais dás sustento a tuas criaturas.

 

Louvado sejas, meu Senhor, pela irmã água,
que é muito útil e humilde e preciosa e casta.

 

Louvado sejas, meu Senhor, pelo irmão fogo,
pelo qual iluminas a noite:
e ele é belo e alegre e robusto e forte.

 

Louvado sejas, meu Senhor, pela nossa irmã a mãe terra,
que nos sustenta e governa
e produz diversos frutos com flores coloridas e plantas.

 

Louvado sejas, meu Senhor, por aqueles que perdoam pelo teu
amor e suportam doenças e atribulações.
Benditos aqueles que conservam a paz
Porque por ti, Altíssimo, serão coroados.

 

Louvado sejas, meu Senhor, por nossa irmã a morte corporal,
da qual nenhum homem vivente pode escapar:
infelicidade para aqueles que morrem em pecado mortal;
benditos aqueles que estiverem fazendo a tua santa vontade
quando ela os surpreender,
porque a segunda morte não lhes fará mal.
Louvai e bendizei meu Senhor e agradecei
e servi-o com grande humildade.

A coleta do orvalho - montado

 

Palavras do curador

Francisco de Assis pode ser considerado fundador da ecologia. Para ele, o ser humano tem uma relação de colaboração com os elementos naturais: a natureza não é subordinada aos interesses humanos. Embora o ser humano se posicione como uma parte singular da natureza, os demais elementos devem ser tratados por nós como membros de uma só família universal.

Francisco de Assis escreveu uma letra de música com suas ideias: o “Cântico das Criaturas”. Desde jovem ele cantava trovas de amor em francês. Nos últimos anos de sua vida, escreveu o “Cântico” na língua de sua terra natal, na Itália; nele, os diversos elementos naturais e as fases da vida são acolhidos como irmãos e irmãs.

Depois da morte de Francisco de Assis, em 1226, os Franciscanos incentivaram um novo olhar para o universo, enxergando nele traços de uma mesma geometria que uniria o pensamento humano aos elementos naturais. Os Franciscanos incentivaram a descoberta da perspectiva a partir dos estudos da geometria da luz e, assim, o nascimento da arte fundada no desenho em perspectiva.

Reunimos aqui artistas que colaboram com elementos da natureza e da vida em seus trabalhos. As obras estão agrupadas conforme as partes do “Cântico” de Francisco de Assis: sol, estrelas, ar, água, fogo, terra, doenças e atribulações, morte. A relação entre arte e ecologia torna-se evidente ao compreendermos a posição fundadora de Francisco de Assis em nossa cultura.

 

Felipe Chaimovich

 

Artistas convidados: Lucia Koch, Marcelo Zocchio, On Kawara, Marcelo Moscheta, Brígida Baltar, Thiago Rocha Pitta, Shirley Paes Leme, Yves Klein, Wolfgang Tillmans, Sérgio Porto, Frans Krajcberg, Paulo Lima Buenoz, Nazareth Pacheco, José Leonilson e Chiara Banfi.

 

27 de fevereiro a 05 de junho

Grande Sala

 

Entrada: R$ 6,00 – gratuita aos domingos
Local: Museu de Arte Moderna de São Paulo
Endereço: Parque do Ibirapuera (av. Pedro Álvares Cabral, s/nº – Portão 3)
Horários: Terça a domingo, das 10h às 17h30 (com permanência até as 18h)
Tel.: (11) 5085-1300
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Restaurante/café