Capa do catálogo do 29º Panorama da Arte Brasileira (2005)
“Que que é arte brasileira?” Esse foi o questionamento que o curador Felipe Chaimovich propôs para o 29º Panorama. A amplitude internacional da produção contemporânea foi colocada em diálogo com preceitos de nacionalidade fundados pela arte acadêmica, à medida que a curadoria organizou as 50 obras dos 50 artistas participantes em oito núcleos: paisagem, costume, natureza-morta, retrato, alegoria, emblema, religiosidade e história.
O MAM, com patrocínio da Energias do Brasil, adquiriu para o seu acervo algumas das obras expostas no 29º Panorama, dos artistas Caetano de Almeida, Rodrigo Andrade, Roberto Bethônico, Paulo Bruscky, Marcelo do Campo, Franklin Cassaro, João Loureiro, Pazé, Pitágoras Lopes Gonçalves, Yiftah Peled e Mauro Restiffe.
Artistas: assume vivid astro focus, Caetano de Almeida, Caetano Dias, Carlos Pasquetti, Chiara Banfi, Cristiano Rennó, Daniel Senise, Diego Belda, Elder Santos, Fabiano Gonper, Fernando Lindote, Francisco de Almeida, Franklin Cassaro, Gilvan Samico, Grupo EmpreZa, João Loureiro, José Bechara, José Bento, José Patrício, Julia Amaral, Julio Ghorzi, Kocubeo e Herbert Baglione, Luciano Mariussi, Luiz Sôlha, Mabe Bethônico, Marcelo do Campo, Marco Paulo Rolla, Marila Dardot, Mario Simões, Mauro Restiffe, Mestre Didi, Miguel Chikaoka, Nuno Ramos, Paula Meira, PaulaGabriela, Paulo Bruscky, Paze, Pitágoras, Raquel Stolf, Roberto Bethônico, Rodrigo Andrade, Rosângela Rennó, Tony Camargo, Torero, Valdieri Dias Nunes, Valdo Marques, Waldir Gomes, Walmer Correa, Yiftah Peled, Zé Antonio Lacerda.
Intitulado Mil graus, o 38º Panorama da Arte Brasileira elabora criticamente a realidade atual do país sob a noção de calor-limite — uma temperatura em que tudo derrete, desmancha e se transforma. O projeto busca traçar um horizonte multidimensional da produção artística contemporânea brasileira, estabelecendo pontos de contato e contraste entre diversas pesquisas e práticas que, em comum, compartilham uma alta intensidade energética. Ao reunir artistas e outros agentes que abordam questões ecológicas, históricas, sociopolíticas, tecnológicas e espirituais, a exposição serve também como um ativador da memória e do debate público. Como conjunto, as obras driblam os limites da linguagem e seus sentidos preestabelecidos, revelando signos universais por meio de gestos e sotaques regionais. A ideia de uma temperatura oposta ao zero absoluto — ou seja, um quente absoluto — aponta os interesses deste Panorama por experiências radicais, condições extremas — climáticas ou metafísicas —, e estados transitórios — da matéria e da alma — que nos põem diante da transmutação como destino inevitável.
A série Panorama da Arte Brasileira, iniciada em 1969, é um marco na história das exposições. O primeiro Panorama da Arte Brasileira coincide com a instalação do Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM) em sua sede, na marquise do Parque Ibirapuera. Com o começo da reforma da marquise, em 2024, o MAM saiu temporariamente de sua sede e deve retornar no início de 2025. O calendário e todas as atividades do MAM foram mantidos graças ao apoio e acolhimento de instituições parceiras que possuem laços históricos com o museu, como a Fundação Bienal de São Paulo, que recebeu parte de sua equipe, e o Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo (MAC USP) que, além de ceder espaço para os colaboradores, abriga o 38º Panorama da Arte Brasileira.
Desenvolvido pelos curadores Germano Dushá, Thiago de Paula Souza e Ariana Nuala, o projeto do 38º Panorama da Arte Brasileira: Mil graus parte de uma expressão coloquial que possui múltiplos significados, mas sempre com o sentido de elevada intensidade. A mostra aponta para condições marcadas pelo calor, pelo derretimento e por mudanças drásticas em qualquer matéria existente. Na presente edição, o mundo contemporâneo é observado a partir de condições extremas, tanto no sentido de questões históricas e sociopolíticas, como em relação a discussões ecológicas e tecnológicas.
O MAM tem estabelecido parcerias com as instituições do eixo cultural do Parque Ibirapuera. Realizar o 38º Panorama da Arte Brasileira no MAC USP, além de uma aproximação histórica entre as duas instituições, é um momento de integração e soma de esforços em benefício da arte e seus públicos. O MAM agradece a receptividade do MAC USP.
Elizabeth Machado Presidente da Diretoria do Museu de Arte Moderna de São Paulo
Cauê Alves Curador-chefe do Museu de Arte Moderna de São Paulo
É com grande satisfação que o Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo (MAC USP) abre suas portas ao 38º Panorama da Arte Brasileira, realizado pelo Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM).
O MAC USP é um museu público criado em 1963 e, desde então, vem se dedicando à preservação, extroversão e atualização de um riquíssimo acervo de obras de arte do Brasil e do exterior. Como museu universitário, as atividades de ensino, pesquisa e extensão ancoram uma intervenção crítica e formativa atenta aos debates da arte moderna e contemporânea. Como tal, não poderíamos nos furtar a acolher em nossa sede essa instituição parceira em tantas iniciativas museológicas e curatoriais. Nas últimas décadas, o Panorama tornou-se um espaço fundamental de reconhecimento e problematização das tendências atuais da arte no Brasil. Contribuir para a manutenção de sua periodicidade, neste momento de reformas na sede do MAM, na marquise do Ibirapuera, é para nós, também, uma oportunidade de diálogo com as propostas e produções reunidas nesta edição da mostra, no 3º andar do prédio, além de algumas obras e intervenções no térreo.
Aproveitamos para convidar o público a visitar, também, as exposições do MAC USP atualmente em cartaz: Tempos Fraturados (6º e 7º andares); Circumambulatio: Anna Bella Geiger e Sacilotto Contemporâneo: cor, movimento, partilha (5º andar); Experimentações Gráficas: Doação Coleção Ivani e Jorge Yunes e Galeria de pesquisa: aspectos da coleção da Terra Foundation for American Art (4º andar) e Acervo Aberto (no anexo).
entrevista realizada pela equipe de Comunicação do MAM São Paulo com os curadores do 38º Panorama da Arte Brasileira: Mil graus acerca da lista de artistas da exposição.
Comunicação MAM: Como se deu o processo de seleção de artistas?
Curadoria 38º Panorama: Apesar de longo, o processo de seleção não foi muito complicado, provavelmente devido às nossas afinidades e ao entendimento coletivo que temos sobre o projeto. Quando a exposição abrir em outubro, terão passado dois anos desde a ideia embrionária e as primeiras conversas ao projeto final. Uma parte da lista é formada por artistas ou coletivos que já havíamos trabalhado antes ou tínhamos interesse em desenvolver algum projeto junto. Vários outros são frutos de uma pesquisa voltada especificamente para 1000°. No fim, são artistas que a gente pensa, mas também sente e intui, que carregam uma certa energia que tem tudo a ver com os fundamentos e a visão do projeto. São artistas cujas práticas representam e incorporam o senso de urgência que queremos abordar. Um critério menos propriamente conceitual foi a decisão de focarmos em artistas em vida, atuantes, privilegiando pessoas que não participaram da Bienal de São Paulo ou não estiveram em edições anteriores do Panorama.
C.M: Como esse conjunto de artistas traça o que é o “Panorama da Arte Brasileira” atual?
C.P: Assim como outras curadorias que vieram antes de nós, sabemos que traçar um “Panorama da arte brasileira” é uma tarefa impossível já de partida. Seria muita pretensão imaginar que uma exposição de arte contemporânea, ainda mais diante dos limites de tempo, espaço, recursos, etc. e das balizas do próprio projeto (conceito, temas, etc), poderia dar conta da dimensão de um país continental, com profundas complexidades sociais e culturais, como o Brasil. Nosso projeto curatorial levou isso em consideração e aceitamos o fato de que nossas perspectivas nunca seriam capazes de cobrir a multiplicidade de práticas artísticas que emergem no país neste momento.
Tendo isso em mente, procuramos compor uma lista de artistas que fosse o mais plural e interseccional possível. Foi um exercício que buscou a constante expansão de perspectivas. O projeto será uma leitura provisória do que entendemos como retrato de um panorama cultural e da cena artística brasileira diante dos conceitos que elegemos para fundamentar o projeto. E claro, sabendo que quaisquer escolhas desse tipo sempre implicam em inúmeras ausências, e que existem muitos outros caminhos e abordagens possíveis para buscar isso.
Dito isso, em meio a toda essa pluralidade, será possível encontrar uma energia compartilhada, alguns nortes comuns e certas zonas de interesse: há vários artistas trabalhando com matéria orgânica bruta e elementos telúricos; que se relacionam direta ou indiretamente com a dimensão espiritual e as práticas esotéricas; há a presença do corpo e do erótico em uma relacao direta com os fluxos e riscos urbanos; e também uma visão ecológica ampliada e que compreende a interconectividade de tudo, e se coloca para muito além de falsas dicotomias como natureza e cultura, natural e artificial, orgânico e tecnológico.
C.M:O partido curatorial indica o desejo de trabalhar com artistas de diferentes gerações, mídias e naturalidades. Podem falar um pouco sobre o porque isso é caro ao projeto?
C.P: Está na gênese do projeto a vontade de propor um diálogo tão amplo e diverso quanto possível. Nossa lista é composta por artistas de todas as regiões e de 16 estados do Brasil, há um número expressivo de pessoas nascidas na década de 40, e depois há várias outras gerações, até chegar em outros nascidos no fim dos anos 1990 e até 2000. O mesmo pode se dizer da vontade de trabalhar com diferentes contextos, pesquisas e práticas. E, naturalmente, com diversas linguagens e modos de pensar e fazer arte. A ideia de certa urgência, de uma temperatura máxima, de situações extremas e da transformação como destino inescapável funciona então como uma base comum, sobre a qual gostaríamos de experimentar sob muitas perspectivas
C.M:E em relação a técnicas e processos artísticos, como se dá essa diversidade, do barro às novas tecnologias?
C.P: A diversidade de mídias e linguagens é um reflexo final dessa pluralidade que orientou a formulação do projeto. Nesse sentido, teremos artistas que trabalham com matérias orgânicas e mídias tradicionais, alguns com práticas espontâneas ligadas a conhecimentos tradicionais e outros mais vinculados a formações acadêmicas, até artistas que estão na franja das experimentações com novas mídias, tecnologias que são pouco convencionais ao circuito artístico, recursos e imagens digitais, equipamentos industriais e materiais artificiais.
O projeto curatorial respeita e chama para um diálogo quente — de forma não condescendente — as matrizes de pensamento e modos de fazer centenários ao passo que traz experimentações com novas tecnologias, cenários urbanos e elaborações de futuros. A ideia é estabelecer certa coesão energética a partir do encontro entre diferenças, flexionando noções enrijecidas sobre o espaço e o tempo, e experimentando como as coisas podem se conectar e coexistir por vias não lineares. Nos interessa refletir se — e como — artistas de contextos tão díspares, com práticas tão distintas, podem se aproximar de uma mesma vibração energética. E não para termos uma visão totalizante e acachapante das coisas, pelo contrário: para entendermos a igualdade na diferença, e os muitos, e sempre renovados, modos de elaborar a realidade, exercitar a imaginação, fazer arte, viver junto, etc.
C.M:Dona Romana é mais conhecida como líder espiritual e não como artista. Como vocês entendem isso e qual a importância de sua figura neste Panorama?
C.P: A dimensão espiritual, não apenas em seu sentido religioso, mas também como uma maneira de entender as relações entre os diferentes seres que habitam nosso mundo, é um dos eixos fundamentais do projeto, e temos um interesse por refletir sobre o entrelaçamento entre práticas esotéricas e o fazer artístico. Há artistas que lidam com isso de modo mais indireto, nos quais enxergamos essa dimensão ainda que seja de maneira velada, e outros que de fato são sacerdotes ou exercem uma função propriamente espiritual.
Dona Romana de Natividade, ou Mãe Romana como também é chamada, não se enxerga como artista. É uma pessoa que recebeu uma missão espiritual e cuja prática envolve criações em escultura, desenho e pintura. É natural que haja um interesse estético pela qualidade de sua obra, que não apenas carrega uma profunda carga vital dada a sua natureza mística e religiosa, mas que tem um grande poder formal e visual. No entanto, suas obras nem mesmo podem deixar o lugar onde estão, devido a ancoragem espiritual. Ainda assim, decidimos insistir em sua participação, mesmo que por via de uma documentação visual ou escrita. Ela tem sido uma figura central no desenvolvimento do projeto, então sua participação é uma reverência e um modo de trazer a força única de sua criação como fundamento da exposição.
C.M:Além de Dona Romana, também temos outros nomes que carregam uma certa aura de “mestre”, como Mestre Zimar, Maria Lira Marques, José Adário dos Santos e Mestre Nado. Fale um pouco da presença deles neste conjunto.
C.P: São figuras de grande estatura, com trabalhos profundos, que há muitas décadas se dedicam a suas obras. Naturalmente, são pessoas que orientam nosso pensamento e fundamentaram a formulação do projeto. Esses artistas são mesmo pilares de força, que embasam o projeto pela carga vital de suas obras e toda áurea que as envolve. Ao mesmo tempo, suas presenças em um Panorama é uma oportunidade de criar diálogos complexos com gente mais jovem e práticas muito distintas, o que naturalmente reafirma a importância de suas obras, já que ao lado de práticas emergentes suas obras resplandecem frescor e se mostram irrefutavelmente atuais. Há um processo que nos interessa também, que é o de tensionar categorias da arte que fixam esses artistas em um único ponto. Muitos deles acabam no limite do que outro dia se convencionou chamar de ‘arte popular’, que é também uma ficção e nomenclatura que não nos interessa e recusamos. Importa-nos estar atentos às diferenças, nos interessa combater leituras atávicas de modo que cada trabalho artístico tenha seu campo de força dentro do mesmo magnetismo, sem necessariamente serem posicionadas em uma determinada categoria por conta de marcadores raciais e de classe.
C.M:A artista Gê Viana participou do 36º Panorama e agora volta em um projeto colaborativo com Thiago Martins de Melo e Território/Povo/Comunidade Akroá Gamella. Conte um pouco sobre a diferença entre os trabalhos que ela exibiu em 2019 e o trabalho que será feito agora, e por que trazer ela novamente ao Panorama.
C.P: Nesse caso consideramos como participante o território ou a comunidade Akroá Gamella, que fica na baixada maranhense. A participação da comunidade, sob o nome de “Rop Cateh – Alma pintada em Terra de Encantaria dos Akroá Gamella, terá como colaboração trabalhos de Gê Viana e Thiago Martins de Melo, artistas que já participaram, respectivamente, de outro Panorama e da Bienal de São Paulo. São artistas que se conectam muito com a visão curatorial, e que têm vivências pregressas com a comunidade Akroá Gamella. Em 2019, Gê focou seu trabalho na história do Capelobo, entidade maranhense meio gente, meio bicho, e criou imagens a partir de autorretratos que sugerem inverter uma lógica de dominação. Para esta edição que estamos construindo, ainda não sabemos como será, mas a ideia é que ela traga fundamentos da sua prática, que envolve pesquisas em arquivos e práticas relacionais. Compreendendo que o território tem uma memória documental a partir de registros, sejam eles mapas, escrituras ou imagens fotográficas, feitas por pessoas não-indígenas e que muitas vezes não condizem com a história que reflete a própria comunidade em seu resgate oral, gestual e também documental, criado com suas próprias ciências e diretrizes. Nesse ponto, tanto Gê quanto Thiago podem somar para somar na apresentação dos Gamella, que poderá envolver fotografias, desenhos, objetos, etc. bem como obras desses dois artistas conectadas às experiências e relações com a comunidade e o território.
C.M:Jayme Fygura é o único artista falecido na lista. Sua presença na exposição será uma espécie de homenagem? Qual o papel dele neste Panorama?
C.P: O caso do Jayme Fygura é a única exceção, pois o nome dele esteve presente desde o princípio do projeto. É alguém que acompanhamos há muito tempo e com quem já trabalhamos antes, e sua passagem se deu poucos meses antes da definição da lista, ou seja, no meio do nosso processo. Sendo assim, acreditamos que seria justo mantê-lo, como homenagem, mas sobretudo por ser um artista emblemático para o norte curatorial, fundamental ao nosso pensamento neste projeto, e cuja trajetória e obra se conectam profundamente com muitos dos assuntos que queremos tratar. E é um artista único, com uma obra poderosa, e que nem de longe teve em vida o reconhecimento devido.
C.M:Há artistas na lista que são pouco conhecidos no circuito das artes, como MEXA, Melissa de Oliveira e Zimar. Como vocês os conheceram e há quanto tempo os acompanham?
C.P: Na verdade são artistas que já circulam bastante por certos canais, apesar de não estarem no núcleo do sistema da arte contemporânea, por assim dizer. São artistas que acompanhamos há algum tempo, alguns são mais próximos, com os quais já trabalhamos algumas vezes, e outros que apareceram em nossa pesquisa e decidimos encarar os riscos de uma primeira colaboração. Acreditamos que trazer artistas ainda pouco presentes no sistema é parte fundamental de um Panorama, pois faz com que novas energias adentrem um debate maior, ao passo que oferece ao público, mesmo aquele habitual do sistema das artes, a oportunidade de conhecer novas práticas.
C.M:Ao mesmo tempo, temos uma artista bastante celebrada, que é a Solange Pessoa. Fale um pouco sobre a inclusão dela neste Panorama.
C.P: A amplitude desse espectro — artistas que ainda tem pouca visibilidade no circuito, e nomes mais notórios e celebrados — revela a vontade do projeto de somar diferentes trajetórias. O caso da Solange Pessoa é bastante específico, pois trata-se de uma artista que participou de grandes mostras mundo afora, mas nunca teve a devida acolhida institucional aqui no Brasil, de modo que nunca participou de uma Bienal ou de um Panorama. Nesse sentido, para nós é uma tremenda oportunidade de incluí-la, tanto pela grandeza de sua obra, quanto pela conexão profunda com os fundamentos conceituais e formais do projeto, e pelas relações que o trabalho dela estabelece, por diferentes vias, com muitos dos outros artistas.
C.M:O trabalho de artistas como Jonas Van & Juno B. e Gabriel Massan tem algo de futurista. Fale um pouco sobre esse aspecto no Panorama.
C.P: Há um aspecto importante no nosso projeto que é a vontade de elaborar um recorte do imaginário social do Brasil no século XXI: um país que está intensamente online, imerso numa cultura cibernética, cuja invenção digital se formula de modo vibrante nas redes e também nas ruas, na arte, na moda, na música, etc. Desde o começo sabíamos que queríamos trabalhar com artistas que criam imaginários por meio do uso de novas tecnologias e modos de produção de imagens. Isso significa também que queremos olhar para a quem está produzindo e puxando os limites de uma discussão que nunca se encerra: a relação entre arte e tecnologia, especialmente se oferecerem também perspectivas que ampliam os parâmetros estabelecidos pelo Norte Global. Se as ideias sobre o futuro perpassam a transformação entre saberes, e muitas vezes estão ligadas a uma temporalidade mais turva e curva do que estamos condicionados a perceber, podemos também considerar que as obras de artistas como Zimar ou Advânio Lessa, ou mesmo o projeto da Comunidade Akroá Gamella também traçam perspectivas de possíveis futuros.
sobre a ampliação da equipe de curadoria
C.M:Como se deu a entrada de Ariana Nuala no time curatorial deste Panorama e qual será sua contribuição?
C.P: A Ariana Nuala é alguém com quem já havíamos trabalhado individualmente e que estávamos em diálogo há um tempo. Ao mesmo tempo que ela tem uma formação ligada a organizações independentes, também acumula experiências institucionais, e nos últimos anos também tem tido um trânsito por diferentes regiões do Brasil, e sabemos que ela acompanha de perto muitos artistas e movimentos que nos interessam. Em algum momento achamos que ter um terceiro olhar de alguém que confiamos e que poderia somar com outras experiências e perspectivas seria importante, e o nome dela foi o primeiro que nos acometeu. Se mostrou uma escolha feliz, pois sentimos que chegamos num bom equilíbrio entre nossas visões e vontades. Sua contribuição tem sido de máxima importância e, a grosso modo, influenciará em todos os aspectos do projeto, já que ela trabalhou ativamente para a definição da maior parte da lista de artistas, e agora nos apoiará no acompanhamento dos processos de criação das obras, no pensamento expográfico, na elaboração dos textos, na organização editorial das publicações, e nos demais desdobramentos da exposição.
podcast
O MAM apresenta seu primeiro podcast original: a série em áudio “Mil graus”.
O podcast foi batizado com o mesmo título da exposição, Mil graus, e traz a ideia de um calor-limite, conceito proposto pela curadoria do 38º Panorama para aludir à uma temperatura em que tudo derrete, desmancha e se transforma.
A série é uma forma de aprofundar e ampliar discussões essenciais da exposição. Ao longo de seis episódios, os ouvintes podem conhecer mais sobre o 38º Panorama do MAM, bem como histórias e curiosidades sobre alguns dos coletivos e artistas que participam da exposição.
O podcast Mil graus está disponível nos principais tocadores: Spotify, Deezer, Apple Podcast e YouTube.
Ficha técnica: Mil graus é um podcast original do Museu de Arte Moderna de São Paulo, com patrocínio do Nubank e da EMS através da Lei federal de incentivo à cultura, Ministério da Cultura, Governo Federal, Brasil União e Reconstrução Direção e produção executiva: Trovão Mídia Concepção: Ane Tavares, Ariana Nuala, Germano Dushá e Thiago de Paula Souza Apresentação: Adriana Couto Pesquisa e roteiro: Flavia Martin Edição, mixagem e montagem de som: Pedro Vituri Trilha sonora original: José Hesse Identidade visual: Raul Luna Design: Paulo Macedo
38º Panorama da Arte Brasileira – Ambiente 3D 2. Obra de Frederico Filippi.
38º Panorama da Arte Brasileira – Ambiente 3D 2. Obra de Marina Woisky.
38º Panorama da Arte Brasileira – Ambiente 3D 2. Obra de Marina Woisky.
38º Panorama da Arte Brasileira – Ambiente 3D 2. Obra de Marina Woisky.
38º Panorama da Arte Brasileira – Ambiente 3D 2. Obra de Mestre Nado.
38º Panorama da Arte Brasileira – Ambiente 3D 2. Obra de Noara Quintana.
38º Panorama da Arte Brasileira – Ambiente 3D 2. Obra de Paulo Nimer Pjota.
38º Panorama da Arte Brasileira – Ambiente 3D 2. Obra de Paulo Nimer Pjota.
38º Panorama da Arte Brasileira – Ambiente 3D 2. Obra de Paulo Nimer Pjota.
38º Panorama da Arte Brasileira – Ambiente 3D 2. Obra de Rafael RG.
38º Panorama da Arte Brasileira – Ambiente 3D 2. Obra de Rebeca Carapiá.
38º Panorama da Arte Brasileira – Ambiente 3D 2. Obra de Zimar.
38º Panorama da Arte Brasileira – Ambiente 3D 2. Obra de Rebeca Carapiá.
38º Panorama da Arte Brasileira – Ambiente 3D 2. Obra de Rebeca Carapiá.
38º Panorama da Arte Brasileira – Ambiente 3D
38º Panorama da Arte Brasileira – Ambiente 3D
38º Panorama da Arte Brasileira – Ambiente 3D
38º Panorama da Arte Brasileira – Ambiente 3D 2. Obra de Jonas Van & Juno B.
38º Panorama da Arte Brasileira – Ambiente 3D
38º Panorama da Arte Brasileira – Ambiente 3D 2. Obra de Frederico Filippi.
38º Panorama da Arte Brasileira – Ambiente 3D 2. Obra de Marina Woisky.
38º Panorama da Arte Brasileira – Ambiente 3D 2. Obra de Marina Woisky.
38º Panorama da Arte Brasileira – Ambiente 3D 2. Obra de Marina Woisky.
38º Panorama da Arte Brasileira – Ambiente 3D 2. Obra de Mestre Nado.
38º Panorama da Arte Brasileira – Ambiente 3D 2. Obra de Noara Quintana.
38º Panorama da Arte Brasileira – Ambiente 3D 2. Obra de Paulo Nimer Pjota.
38º Panorama da Arte Brasileira – Ambiente 3D 2. Obra de Paulo Nimer Pjota.
38º Panorama da Arte Brasileira – Ambiente 3D 2. Obra de Paulo Nimer Pjota.
38º Panorama da Arte Brasileira – Ambiente 3D 2. Obra de Rafael RG.
38º Panorama da Arte Brasileira – Ambiente 3D 2. Obra de Rebeca Carapiá.
38º Panorama da Arte Brasileira – Ambiente 3D 2. Obra de Zimar.
38º Panorama da Arte Brasileira – Ambiente 3D 2. Obra de Rebeca Carapiá.
38º Panorama da Arte Brasileira – Ambiente 3D 2. Obra de Rebeca Carapiá.
38º Panorama da Arte Brasileira – Ambiente 3D
38º Panorama da Arte Brasileira – Ambiente 3D
38º Panorama da Arte Brasileira – Ambiente 3D
38º Panorama da Arte Brasileira – Ambiente 3D 2. Obra de Jonas Van & Juno B.
curadoria
Germano Dushá
(Serra dos Carajás (PA), 1989 )
Natural de Serra dos Carajás (PA), Germano Dushá é curador, escritor, crítico e agente cultural. Graduado em Direito (FGV-SP) e pós-graduado em Arte: Crítica e Curadoria (PUC-SP), ele vive e trabalha em São Paulo. Sua pesquisa traz o cruzamento entre estética, crítica e tradições esotéricas, e sua prática assume múltiplas formas — em experimentações curatoriais, literárias e hipermídias — para investigar imaginários sociais, e a energia ligada às experiências subjetivas radicais e aos processos de transmutação. Ao longo de sua trajetória, vem colaborando com instituições, galerias e publicações em diferentes países. Entre as exposições mais recentes em que assinou curadoria, estão Esfíngico Frontal, da Galeria Mendes Wood DM (São Paulo) e Arqueia mas não quebra, da Almeida & Dale (São Paulo), ambas de 2023; Calor Universal, na Pace Gallery (Hamptons) e Semana sim, Semana não, da Casa Zalszupin (São Paulo) em 2022; e A Hora Instável, na Bruno Múrias (Lisboa), em 2019. Atualmente é coordenador do Fora, organização pluridisciplinar fundada em 2018 que trabalha com projetos culturais e estratégias institucionais.
Thiago de Paula Souza
(Taboão da Serra (SP), 1985 )
Thiago de Paula Souza é curador e educador. Sua pesquisa perpassa o desejo de ampliar e reelaborar o formato expositivo, e a potência da arte contemporânea e da educação ao repensarem o passado e produzirem novos códigos éticos. A prática de Thiago cruza diferentes configurações de conhecimento e poder, articulando a construção de infraestruturas para imaginar um mundo em que a violência não é mais seu fundamento. É formado em Ciências Sociais pela Unesp e doutorando pela HDK-Valand na Universidade de Gotemburgo, Suécia. Entre os projetos institucionais em que já atuou estão: While We Are Embattled (2022), do Para Site, em Hong Kong, onde foi co-curador; e Atos de revolta, no MAM Rio; integrou equipes curatoriais da 3ª edição da Frestas — Trienal de Artes (2020 – 2021), organizada pelo Sesc São Paulo; We don’t need another hero — 10ª Bienal de Berlim (2018); e foi consultor curatorial da 58ª Carnegie International (2012/2022). Entre 2022 e 2023 foi co-curador do Nomadic Program da Vleeshal Center for Contemporary Art na Holanda. Atualmente integra o comitê de curadores da Ners Foundation Sua mais recente exposição foi Some May Work as Symbols: Art Made in Brazil, 1950-1970.
Ariana Nuala
(Recife (PE), 1993 )
Ariana Nuala nasceu em Recife (PE), onde vive e trabalha. É educadora, pesquisadora e curadora que se envolve com coletivos artísticos para discutir dinâmicas de poder, impermanência e diáspora. Ela combina estratégias que surgem do corpo para seu exercício na escrita, moldando sua prática curatorial de forma poética. Tem formação em Lic. em Artes Visuais pela UFPE e atualmente é mestranda em História da Arte na UFPB, com experiências acadêmicas na UNAM e CLACSO. Ocupa o cargo de Gerente de Educação e Pesquisa na Oficina Francisco Brennand, instituição onde já foi curadora, e também já foi Coordenadora de Educação no Museu Murillo La Greca (2018-2020). Foi curadora da exposição Invenção dos Reinos em conjunto com Marcelo Campos na Oficina Francisco Brennand. Colaborou com galerias como Marco Zero (PE) nas exposições As Janelas de Bajado. de Bajado, e Festa para o Caçador, de Gilvan Samico; com a Verve na exposição Vira-casaca, de Fefa Lins (SP); com a Almeida e Dale (SP) na exposição coletiva Arqueia mas não quebra, em colaboração com Germano Dushá e Rafael RG; com a Cavalo na exposição Labirintos Vivos, de Ana Clara Tito (RJ); com a Nara Roesler (SP) na exposição Infinito outros, de José Patrício, entre outras colaborações, como na curadoria da exposição Além. Aquém. Aqui. de Abiniel João Nascimento no Centre d’Art Contemporain Paradise (França) e na curadoria da exposição coletiva Estratégias para o contorno que circulou em várias unidades do SESC PE. Foi também orientadora da residência PEMBA no projeto DOS BRASIS e colabora em júris artísticos e na criação de residências para agentes das artes.
artistas
Adriano Amaral
(Ribeirão Preto (SP), 1982)
O trabalho de Adriano Amaral envolve um exame da natureza das coisas do mundo; a materialidade e a substância do que esta ao nosso redor assim como seu valor e poder de transformação ao longo do tempo. Sua prática parte de uma abordagem intuitiva e plural, e resulta em complexas instalações imersivas sempre sensíveis ao contexto em que está inserida.
Depois de concluir seu mestrado na Royal College of Art de Londres em 2014, Adriano fez uma residência artística de dois anos no De Atelier em Amsterdã e em seguida recebeu o Mondrian Fonds Work Contribution Proven Talent em 2017.Suas recentes exposições institucionais incluem projetos solos no Kunstinstituut Melly (Rotterdam, Holanda), Vleeshal Zusterstraat (Middelburg, Holanda) e Bielefelder Kunstverein (Bielefeld, Alemanha).
Exposições coletivas incluem projetos no Mudam (Luxemburgo), Sixty Eight Art Institute (Copenhague), Museu de Arte Moderna de Moscou e Beelden Aan Zee (Haia, Holanda).
Foto: Alexandre Virgilio
Advânio Lessa
(Ouro Preto (MG), 1981)
Advânio Lessa nasceu e vive até hoje em Lavras Novas, distrito de Ouro Preto (MG). Tanto a sua terra de origem, marcada pela herança quilombola, quanto os ofícios de seus pais (tropeiro e cesteira), são partes fundamentais do universo que irriga a sua poética. Realizando esculturas de grande escala a partir de troncos de madeira de árvores mortas, raízes e trançados de cipó, o artista vincula os conhecimentos da cestaria e da marcenaria com as madeiras e fibras encontradas nas matas da região de Ouro Preto: Cipó Alho, Cipó São João, Candeia, Jacarandá, Folha Miúda e Alecrim. É em estreito diálogo com esse repertório que Lessa, que também é agricultor, realiza suas peças. Nesse sentido, não nos parece enganoso afirmar que a natureza aqui é uma espécie de co-autora de suas obras.
A produção do artista ganha o mundo munida, a um só tempo, de uma intensa eloquência formal e de uma relevante conotação discursiva. Suas esculturas, cujas escalas se aproximam àquela do corpo humano, atestam uma relação de reciprocidade entre nós e tudo aquilo que é vivo ao nosso redor. Nesse sentido, ressoam uma tendência importante da atualidade: no lugar de epistemologias caras a um modo Ocidental de conceber o mundo, para as quais nós humanos estamos sempre em posição superior, entram em cena cosmologias onde testemunha-se uma relação não hierárquica entre todos os seres vivos.
Foto: Heber Bezerra – makeplug
Ana Clara Tito
(Rio de Janeiro (RJ), 1993)
Ana Clara Tito desenvolve sua prática artística a partir do corpo, seus estados físicos e mentais, e as relações que estabelecemos com os espaços que construímos e habitamos. Em objetos, fotografias, performances e instalações, sua obra integra elementos que remetem à arquitetura e arqueologia com ítens íntimos. Matérias como destroços de concreto, cacos de barro e metais oxidados, são usadas no desenvolvimento de um universo que reflete sobre limites, tanto carnais quanto de paridade, propondo exercícios de permissão.
Em 2023, Tito apresentou individuais na galeria Cavalo, no Rio de Janeiro e no Auroras, em São Paulo. Em 2021, apresentou no MAM Rio a individual “O que se degrada segue em frente”. Integrou exposições coletivas no Museu de Arte do Rio, Instituto Moreira Salles, Valongo Festival Internacional da Imagem, Galpão Bela Maré, entre outros. Nos últimos anos, participou das residências FAAP (2023), Pivô (2022) e MAM Rio – Capacete (2020). Graduou-se em desenho industrial pela Esdi-UERJ e é mestre em artes visuais pelo PPGArtes UERJ. Participa do 38 Panorama da Arte Brasileira e é co-fundadore e integrante da Nacional Trovoa.
Antonio Tarsis
(Salvador (BA), 1995)
Antonio Tarsis nasceu em Salvador, no ano de 1995. Adota o reprocessamento de objetos cotidianos como tática de composição e crítica. Caixas de fósforo, caixotes de feira e fragmentos de carvão são exemplos de elementos cuja fragilidade e caráter descartável são aproveitados por Tarsis como registros visíveis da ação do tempo. Após guardar e acumular esses objetos transitórios, as matizes de cores mais ou menos desbotadas, o papel de seda colado por cima de superfícies parcialmente encobertas e pedaços quebrados de carvão vegetal compõem a textura de suas assemblages, que recebem intervenções gráficas na forma de colagens e desenhos. Os seus materiais carregam um potencial de combustão ou flamabilidade, e Tarsis frequentemente usa pólvora queimada como parte de seu léxico visual. Ao sobrepor composições abstratas ao sentido intrínseco da matéria que emprega, o artista insiste na volatilidade dos processos plásticos, dando lugar a uma metáfora da instabilidade da memória individual e coletiva diante da degradação social e da transformação física.
Davi Pontes
(Rio de janeiro (RJ), 1990)
Artista, coreógrafo e pesquisador. Formado em Artes pela Universidade Federal Fluminense e mestre em Artes (Estudos Contemporâneos das Artes) pela mesma instituição. Ele foi premiado com o ImPulsTanz – Prêmio de Jovens Coreógrafos 2022 e o Prêmio Artlink – 100 artistas de todo o mundo, 2022. Participou como um dos artistas da 35ª Bienal de São Paulo. Coreografou a obra “Variação” para o Balé da Cidade de São Paulo. Desde 2011, ele tem apresentado seu trabalho em galerias de arte e festivais nacionais e internacionais, incluindo a Universidade da Pensilvânia (EUA), My Wild Flag (Estocolmo), Pivô (São Paulo), Centro Cultural de Belém (Lisboa), Rua das Gaivotas 6 (Porto), Bienal Sesc de Dança, MITsp – Festival Internacional de Teatro de São Paulo, Festival Les Urbaines (Suíça), Arsenic – Centro de Arte Cênica Contemporânea (Suíça), Galeria Vermelho (São Paulo), Valongo Festival Internacional da Imagem (São Paulo), Museu de Arte do Rio de Janeiro (Rio de Janeiro), Programa Rumos Itaú Cultural 2021, Festival Programme Commun 2024, Arsenic (Suíça), Sâlmon Festival d’arts vives de (Barcelona), Zodiak — Center for New Dance (Finlândia), Panorama Festival (Rio de Janeiro), 5ª Mostra de Dança Itaú Cultural (São Paulo), Buddies In Bad Times Theatre, Toronto (Canadá), Mendes Wood DM (São Paulo) e residência no ImPulsTanz 2022 [8: tensão] Série de Jovens Coreógrafos (Áustria), La Becque (Suíça), Tanzhaus NRW (Alemanha), Programa de Pesquisa em Arte Pivô, Programa de Residência em Pesquisa de Artes do MAM Rio e Escola Livre de Artes – ELÃ, entre outros. Ele dirigiu o filme “Delirar o racial” em parceria com o artista Wallace Ferreira, uma obra encomendada pelo Programa Pivô Satélite em 2021. Baseado em pesquisa corporal, sua prática enfrenta o constante desafio de posicionar a coreografia e a racialidade para responder às condições onto-epistemológicas do pensamento moderno. Seu principal projeto consiste em analisar as conjunturas em que a violência.
Dona Romana
(Natividade (TO), 1941)
Dona Romana Pereira da Silva é mística e líder espiritual. Mora a 3 Km da zona urbana da cidade, local denominado Centro Bom Jesus de Nazaré, no sítio Jacuba. Semianalfabeta, aprendeu em casa, o básico para ler e escrever. Ela diz ouvir as vozes de três curadores que a orientam no que dizer ou fazer há mais de 35 anos. Romana vive em um sítio, onde ela construiu e estão espalhadas esculturas de pedra tapiocanga e cimento em forma de humanos e animais, pássaros, figuras estrelares e geométricas, com várias antenas entrelaçadas por fios. Também estão armazenados cadernos manuscritos, desenhos em cartolinas, livros, objetos, roupas, comida, grãos e muita água, que a mística diz que um dia serão utilizados por pessoas que chegarão necessitadas à região. Em 2007, Romana foi homenageada pelo poder público municipal com o diploma e a medalha de honra ao mérito “Pio Pinto de Cerqueira”. Com várias atividades diárias, Romana desenvolve além do seu lado espiritual/místico, se revela uma grande artista com suas obras.
Frederico Filippi
(São Carlos (SP), 1983)
Mestre em Artes Visuais na Escola de Comunicação e Artes da USP. Trabalha com mídias variadas, interessado na fronteira entre o natural e o construído, em especial atenção sobre a floresta e o continente sul americano. É colaborador há 8 anos no território da BR 319 no Amazonas. Principais exposições estão as individuais Cobra Grande (Museu de Arte Moderna de São Paulo, 2022), Terra de Ninguém (Galeria Leme, 2020), Cobra Criada, (Galeria Athena, 2019), Próprio Impróprio (Galeria Leme, 2016), Fogo na Babilônia (Pivô, 2015), as coletivas Obscura Luz, com curadoria de Kiki Mazuchelli, Ecologias Radicales, BIENALSUR, Com o ar pesado demais para respirar, curadoria de Lisette Lagnado, Caixa Preta (Fundação Iberê Camargo) curadoria de Fernanda Brenner, Eduardo Sterzi e Verônica Stigger, Bienal de Foto e Vídeo de Brandt (Dinamarca, 2016), Si no todas las armas, los cañones – Matadero Madrid, Até Aqui Tudo Bem (White Cube São Paulo). Residências e bolsas: Despacio, Costa Rica (2018), PIMASP, Museu de Arte de São Paulo (2016/17), Intervalo Escola, Amazonas (2017), KIOSKO, Bolívia (2015); El Ranchito – Matadero, Madri (2014), 5ª edição da Bolsa Pampulha, Belo Horizonte (2013/14), Centro de Investigaciones Artisticas, Buenos Aires (2013), Ateliê Aberto #6, Casa Tomada (2012) e Red Bull House of Art, SP (2011).
Gabriel Massan
(Nova Iguaçu (RJ), 1996)
Gabriel Massan é um artista multidisciplinar que vive e trabalha em Berlim. Combinando “storytelling” e “worldbuilding”, os cosmos que Massan cria, simulam e narram situações de desigualdade.
Emoldurado por uma prática conceitual que chama de arqueologia ficcional e trabalhando com animação 3D, escultura digital, jogos, som e instalações interativas, o artista desafia concepções distorcidas do chamado Terceiro Mundo enquanto investiga possibilidades de alteridade subversiva. As residências e prêmios selecionados incluem o Programa Arts Explora apoiado pela Cité Internationale Des Arts em Paris (2023), Dazed 100 (2022), Circa x Dazed (2021), Instituto Moreira Salles (2020) e ETOPIA – Center for Art & Technology (2019). Ele participou de comissões significativas com a Serpentine Arts Technologies (2022-3), a Bangkok Biennale (2022), a The Photographers; Gallery (2022) e o X Museum (2022). Massan apresentou palestras e conversas em instituições como La Biennale di Venezia, Art Basel Miami, DLD Conference, University College London, Royal College Of Arts e Institut Français. Suas exposições recentes incluem: “WORLDBUILDING: Gaming and Art in the Digital Age” (Julia Stoschek Collection, 2022; Centre Pompidou-Metz, 2023); Canon (Frieze No.9 Cork Street, 2022) e Possible Agreements; (Mendes Wood DM, 2022). Em 2023, Gabriel apresentou suas primeiras exposições individuais, começando com o projeto multipartes aclamado pela crítica Third World:The Bottom Dimension; na Serpentine Galleries, seguido por; Continuity Flaws na Outernet London.
Ivan Campos
(Rio Branco (AC), 1960)
Quando rabiscava seus desenhos em pano, lençóis ou guardanapos, cujas gravuras seriam cobertas com pintura por sua mãe, dona Gercina Braga Campos, já falecida, uma costureira e bordadeira de mão cheia, o hoje artista Ivan campos Moreira, de 62 anos, nem imaginava que ali começava sua principal profissão e atividade de um artista diferenciado e cujos quadros, na atualidade, ornam museus e coleções ao redor do mundo. Pinta a natureza e a exuberância da floresta amazônica com riqueza de detalhes. Seus quadros são tão detalhistas que algumas gravuras, de bichos e insetos, só são possíveis de serem admiradas com o uso de lupas.
Jayme Fygura
(Cruz das Almas (BA), 1951 – Salvador (BA), 2023)
Artista plástico, gráfico, pintor, escultor, desenhista, performático. Nascido em Cruz das Almas, atua desde o início da década de 1980 até 2023 nas ruas de Salvador, deixando marcas da sua imagem pelo Centro Histórico da cidade de Salvador. Jayme veio para Salvador aos cinco anos com a família. Desde criança, ele criava brinquedos com latas e madeiras. Jayme dizia ser autodidata e ter sido “salvo” pelo desenho. “Foi o desenho que me salvou, foi o desenho que me deu vida” disse em entrevista ao G1, em 2013.
Jonas Van & Juno B
(Jonas Van – Fortaleza (CE), 1989 | Juno B. – Fortaleza (CE), 1982)
Juno B. nasceu no Ceará, atualmente mora em São Paulo. Artista transdisciplinar não binário, incorpora vídeo, fotografia, 3D, texto e escultura em instalações imersivas. Em seu trabalho propõem experimentos, fabulações e diálogos baseados em discursos não hegemônicos e hipóteses de modos mútuos de estar no mundo. A sua prática transita entre a desobediência de género, mutações transespecíficas, conflitos tóxicos, migrações climáticas e paisagens adaptativas; tensionando as noções visíveis do humano e os limites entre estética, ética e política. Participaram das Residências Artísticas: Travessias Ocultas – Lastro in Campo Brasil-Bolívia (2017) / Materia Gris – La Paz, Bolívia (2017) / Zona de Contencioso – Ceará e Piauí, Brasil (2020), Belluard Bollwerk, Friboug, Suíça e Programa Pivô Pesquisa, São Paulo, Brasil (2021). Recentemente colaborou nos projetos: Museu Itamar Assumpção, plataforma Lastro.
Jonas Van é artista transnordestino e cozinheiro. A sua prática está inscrita entre a desobediência de gênero, linguagem e naturezas monstruosas, por meio de som-vídeo, instalações efêmeras e texto. Seu trabalho propõe narrativas ficcionais profundamente íntimas, fraturas linguísticas e temporais numa perspectiva anticolonial. Esteve em residência no México, Bolívia, Portugal, Espanha, Brasil e Suíça. Mestrando em artes visuais – CCC (estudos em Crítica, Curadoria e Cibernética) na HEAD, Genebra, Suíça.
José Adário dos Santos
(Salvador (BA), 1947)
José Adário dos Santos (1947) nasceu no bairro de Caixa d’Água, Salvador, Bahia. Aos 11 anos de idade, iniciou-se no ofício de ferreiro de santo com o seu mestre e mentor Maximiano Prates. Desde então, fabrica portões, agogôs e ferramentas de santo: instrumentos de percussão e esculturas de ferro que operam uma espécie de mediação entre os homens e os deuses no candomblé. Pela originalidade e consistência de seus objetos, José Adário passou a ser não só o escultor-ferreiro mais celebrado dos terreiros de candomblé da Bahia, mas um artista reconhecido por honrar as raízes afro-diaspóricas que povoam a cultura de sua região. Baseado nos costumes do candomblé, nos cânones da arte Iorubá e nas diferentes expressões possibilitadas pelo ferro, José produz, assim, esculturas que percorrem terreiros, museus, coleções e galerias, dando vida a entidades sagradas e dialogando com a potência férrea de seus ancestrais e de Ogum, aquele que rege seu trabalho: o ferro.
Entre as suas principais exposições estão: DOS BRASIS: Arte e Pensamento Negro (Sesc Belemzinho, São Paulo, 2024); Something Beautiful: Reframing La Colección, (El Museo del Barrio, New York, USA, 2023); Brasil Futuro – Formas da Democracia (Museu Nacional da República, Brasília,Brasil 2022; Centro Cultural Ferrão, Salvador / Museu Nacional da República, Brasília,/Espaço Cultural Casa das Onze Janelas, Belém, Brasil, 2023) Centro Cultural Solar Ferrão, Bahia, 2023); Alágbedé – Retrospectiva José Adário dos Santos (Caixa Cultural Salvador, 2023); José Adário, (Galatea, São Paulo,2022); Alagbedé – O Ferreiro dos Orixás, (Arco 26, Salvador, 2021); A Cidade da Bahia, das baianas e dos baianos também (Museu Afro Brasil, São Paulo, 2019) ; Axé Bahia: the power of art in an Afro-Brazilian metropolis, Fowler Museum, Califórnia (2018; Afrikanische Religiosität in Brasilien; Kunst und Afro-Brasilidad, Frankfurter Kunstverein, Frankfurt, 1994); 1ª Bienal Latino-Americana, Fundação Bienal de São Paulo, São Paulo, Brasil, 1978 Suas esculturas estão presentes nos acervos da Casa do Rio Vermelho, Salvador, Brasil, El Museo del Barrio, New York, USA Kadist, San Francisco, USA Museu Afro Brasil, São Paulo, Brasil Museu de Arte Moderna da Bahia, Salvador, Brasil Museu da Cultura Nacional Afro-Brasileira – Muncab, Salvador, Brasil Pinacoteca de São Paulo, São Paulo, Brasil.
Joseca nasceu na década de 1970, na região do Demini, Terra Indígena Yanomami, e começou a desenhar e a esculpir animais notáveis em madeira no início dos anos 2000. Antes disso, ele havia sido o primeiro estudioso de línguas e professor da comunidade Watorikɨ, no início dos anos 1990 e também o primeiro Yanomami a trabalhar na área de saúde. Desde 2003, as obras do artista são exibidas em importantes instituições de arte e ajudam a fortalecer a luta Yanomami e a divulgar os saberes dos indígenas para o Brasil e o mundo.
Labô Young
(Belém (PA))
Labô Young é um artista paraense nascido em Icoaraci, distrito da cidade de Belém, que desenvolve, dentro das artes visuais/moda nacional e internacional, um trabalho que ecoa suas raízes da Amazônia brasileira. Uma pesquisa íntima que envolve suas experiências do viver e cotidiano em Icoaraci. Suas criações são movidas pelas histórias de encantaria amazônica, o rio e os materiais orgânicos que o inspiram desde a infância, materiais esses usados para a produção das peças que constrói até hoje, compreendendo assim a importância dos repasses de saberes e técnicas ancestrais na sua cultura e família.
Rafaela Kennedy
(Manaus, Amazonas, Brasil, 1994)
Rafaella Kennedy nasceu em Manaus, Amazonas, Brasil (1994). A artista visual trabalha com fotografia, moda e performance e utiliza essas linguagens para abordar a relação entre corpo e imagem. Rafaella Kennedy propõe em seus trabalhos novos imaginários para as populações originárias e negras que desafiam e tencionam o apagamento sofrido por esses grupos. Entre suas exposições, destacamos suas participações nas coletivas Invenção dos Reinos, Oficina Francisco Brennand, Recife, Pernambuco (2023); e 38º Panorama da Arte Brasileira: Mil graus, MAM São Paulo (2024). Suas obras também integram coleções de importantes museus, como MAM São Paulo, Museu Afro Brasil, São Paulo e Fundación Casa Wabi, Puerto Escondido, México.
Lais Amaral
(São Gonçalo (RJ), 1993)
É artesã-artista, co-fundadora do movimento Trovoa, graduada em Serviço Social pela Universidade Federal Fluminense (UFF) onde iniciou sua pesquisa sobre os efeitos do colapso ambiental no contemporâneo, ao comparar os contextos das desertificações ambientais ao projeto de embranquecimento da população, natureza e organização da vida em suas dimensões subjetivas e espirituais. A artista nomeia o gesto de pintar como vazar, na tentativa de referenciar os movimentos da natureza e de umedecer as formas de existir. Tal experiência está diretamente ligada aos mistérios e a apreensão da realidade sensível que permeia a memória e o tempo. Atualmente dedica-se ao reconhecimento de sua constituição familiar, habitando e esgarçando as lacunas socioestruturais entre artesanato e arte.
Lucas Arruda
(São Paulo (SP), 1983)
O trabalho de Lucas Arruda se concentra com obstinação num tema bem definido no cânone da história da arte para abordar complexos estados mentais contemporâneos. Sua pesquisa se desenvolve fundamentalmente em torno da manifestação da paisagem, pensando e experimentando nossa capacidade de viver pela mediação da luz e do olhar.
Por meio de uma poderosa e coesa série de pinturas a óleo, e também de projeções de slides e instalações de luz, suas paisagens existem no ponto de tensão entre abstração e figuração, entre aparição e vazio. A cada lance de visão são demarcadas experiências num processo de construção e reconstrução da memória, como se a formulação de campos de cores tateasse o corpo imaterial das passagens temporais e das sensações vividas.
Nos movimentando acima e abaixo de linhas do horizonte, o artista nos põe diante de atmosferas carregadas com questões tão visuais quanto metafísicas. Entre o céu e a terra, o etéreo e o sólido, a imaginação e o terreno, uma contemplação meditativa encontra sua rotina ao acompanhar um interminável, e nem sempre claro, ciclo de sublimação e deposição da matéria.
Marcus Deusdedit
(Belo Horizonte (MG), 1997)
Graduado na Escola de Arquitetura da UFMG e mestrando pela FAUUSP, atua como artista visual produzindo na intersecção entre arte, arquitetura e design. Em sua pesquisa, explora possíveis distorções e deslocamentos estéticos dos códigos desses campos a partir de uma perspectiva negra e periférica e do exercício do remix em diferentes linguagens.
Fruto desta investigação é o | re-lab.xyz | abrigo digital e virtual para os experimentos em torno desse processo. Em sua trajetória, participou da residência artística 8ª Bolsa Pampulha, foi premiado pelo 4º Prêmio Décio Noviello de Artes Visuais e participou de uma série de exposições coletivas nos últimos anos. Atualmente têm desenvolvido experimentos entre objetos tridimensionais as mídias digitais em diversas escalas.
Maria Lira Marques
(Araçuaí (MG), 1945)
Filha de um sapateiro e de uma lavadeira, nasceu em Araçuaí, onde vive até hoje. Desenvolveu seu interesse por cerâmica e por trabalhos manuais diversos desde criança ao ver a sua mãe, Odília Borges Nogueira, construir presépios em barro cru. Mais tarde, aprendeu com sua vizinha, conhecida como Joana Poteira, técnicas de extração e cozimento do barro.
Realizou sua primeira exposição em 1975 no Sesc Pompeia, em São Paulo e, desde então, expôs em diversas instituições nacionais e internacionais na Bélgica, Holanda, Dinamarca, França e Estados Unidos. Sua obra é caracterizada pela integração de uma linguagem gráfica decorrente dos pigmentos naturais com a paisagem sertaneja. Desde a década de 1990, dedica-se ao corpo de trabalho conhecido como Bichos do Sertão, pinturas de animais imaginários que compõem um vasto bestiário formal.
Em seus mais de 40 anos como artista, Maria Lira coloca-se também como pesquisadora, ativista e divulgadora dos artistas e artesãos do Vale do Jequitinhonha, sobre o qual desenvolveu um longo trabalho em colaboração com o Frei Xico, frade holandês radicado no Brasil. Com ele, também esteve à frente do Coral Trovadores do Vale, cujo repertório era formado pelo cancioneiro da região. Em 2010, fundaram o Museu de Araçuaí, criado com o objetivo de abrigar um acervo de objetos e documentos que registram a religiosidade, os usos, costumes e ofícios que constituem a história de Araçuaí.
Sua obra foi estudada pela pesquisadora Lélia Coelho Frota, uma das principais autoridades em arte popular brasileira e, em 2007, sua trajetória foi homenageada em uma peça com seu nome dirigida por João das Neves. Realizou também exposições no Programa Sala do Artista Popular e no Museu Casa do Pontal, no Rio de Janeiro, e no Centro de Arte Popular, em Belo Horizonte. Em 2021, realizou a exposição Maria Lira Marques: Obras recentes na Bergamin & Gomide, atual Gomide&Co.
Marina Woisky
(São Paulo (SP), 1996)
Marina Woisky parte de imagens de objetos decorativos e de ornamentos com formas orgânicas como substrato para sua produção. Distorcidas, deslocadas e comprimidas pelas sucessivas transposições materiais e pela passagem do tempo, tais imagens são transformadas pela artista em animais e paisagens extraordinários e quiméricos, apresentados em obras que se posicionam no limiar entre a bi e a tridimensionalidade. Com isso, a artista aborda a representação, problema fundamental das artes e noções de gosto, assim como o próprio estatuto imagético na sociedade contemporânea.
Marlene Almeida
(Bananeiras (PB), 1942)
Nasceu em Bananeiras, Paraíba, Brasil, em 1942. Artista, graduada em filosofia pela Universidade Federal da Paraíba, onde fez cursos de desenho, pintura e escultura. Dedica-se à pesquisa de materiais artísticos desde os anos 1970. Teve uma bolsa apoio do CNPQ e da UFPB para uma extensa pesquisa sobre pigmentos e aglutinantes naturais. Ministrou cursos sobre manufatura de tintas minerais, terras brasileiras, em quase todos os estados e em alguns países, com destaque para os projetos realizados na Alemanha.
Participou de centenas de exposições, e utiliza até hoje os materiais naturais em suas obras. A terra tem sido seu meio técnico e poético. Em 1974 fundou o Centro de Artes Visuais Tambiá, onde, durante 10 anos, coordenou e participou de exposições e intercâmbios internacionais, com destaque para as ações de arte ecológica. Mantém ateliê em João Pessoa,
Melissa de Oliveira
(Morro do Dendê (RJ), 2000)
Melissa Martins tem as lentes apontadas para o que acorre em grupo, o que ocorre ao seu redor, atenta à expressão cultural, atenta aos movimentos estéticos e recreacionais do Morro do Dendê, no Rio de Janeiro. MELISSA olha para a construção identitária e ali se percebe. O que é periférico para uns é central para ela.
Mestre Nado
(Olinda (PE), 1945)
Aguinaldo da Silva, conhecido artisticamente como MESTRE NADO, nasceu em Olinda, Pernambuco, no dia 08 de maio de 1945. Desde muito cedo sua vida foi ligada ao barro, hoje tem mais de 60 anos dedicados à criação com essa matéria. Mestre Nado, aluno e professor em seu ofício, repassa a lição assimilada com o tempo como uma missão de vida. Aos dez anos, já trabalhava em uma olaria, produzindo “quartinhas” (vasos que mantinham a água fresca). Até os 17 anos, passou por muitos ofícios: catador, batedor de barro, polidor de peças e oleiro, atividade que iniciou ainda nos anos 60. O declínio no uso das quartinhas indicou a hora de usar da criatividade para buscar novos conhecimentos e sobreviver.
Sua habilidade criativa com o barro o levou a cruzar caminhos com Thiago Amorim e Francisco Brennand, dois renomados ceramistas pernambucanos, com quem aperfeiçoou a técnica de queima em altas temperaturas e a criação de esculturas. Com os anos de estudo e experimentação criativa, Mestre Nado descobriu e desenvolveu esculturas que produziam sons ao serem sopradas. Aprofundou pesquisas com técnicas musicais que elevaram a sua obra a outros patamares criativos, desenvolvendo instrumentos harmônicos de sopro conhecidos como ocarinas e diversos instrumentos de percussão. Tornou-se músico e revelou-se compositor, tendo os instrumentos criados por ele mesmo como identidade artística. Seu trabalho ganhou notoriedade e reconhecimento além de Pernambuco, chegando a realizar apresentações com a Orquestra Sinfônica de São Paulo e a gravar seu primeiro CD em 2014, intitulado O Som do Barro. Teve instrumentos seus utilizados em shows de artistas consagrados como Naná Vasconcelos, Milton Nascimento, Ney Matogrosso, entre outros.
Tendo como inspiração principal os ritmos regionais e ícones da nossa cultura, Mestre Nado consegue extrair música, beleza e leveza utilizando-se dos quatro elementos básicos da natureza: a terra, o fogo, a água e o ar. Os três filhos e uma filha trabalham com ele e formam um grupo musical chamado O Som do Barro, que se apresenta em shows e oficinas de cerâmica e música, utilizando os instrumentos de sopro e percussão feitos por ele. Através de suas oficinas de repasse de seus saberes, o Mestre Nado criou a Orquestra Mestre Nado, formada por aprendizes. Estas oficinas ganharam notoriedade na comunidade onde mora e arredores por atrair o interesse de crianças e adolescentes para a confecção de instrumentos e a criação musical, além de servir como tecnologia social para o trabalho dos Centros de Referência da Assistência Social de Olinda (CRAS) em projeto voltado para o público de idosos e idosas participantes do Serviço de Convivência e Fortalecimento de Vínculos (SCFV), transformando-se em importante obra social e cultural. Pela enorme relevância de sua vida e obra, recebeu o título de Patrimônio Vivo de Pernambuco, além do Notório Saber em Cultura Popular. Atualmente, o Mestre Nado e sua família dedicam-se ao fortalecimento do INSTITUTO MESTRE NADO, criado para preservar o seu legado e oferecer oficinas, aulas-espetáculo, saraus e concertos da Orquestra Mestre Nado e onde também é comercializada a sua produção. O Instituto também sedia ações culturais para promover outros artistas como artesãos e músicos, além de outras linguagens culturais, e levar ao público uma mostra da rica diversidade cultural que nos identifica enquanto povo.
MEXA
(São Paulo (SP), 2015)
O Mexa foi criado em 2015 após episódios de violência em algumas casas de abrigo em São Paulo. Desde sua gênese, o coletivo explora e debate as distâncias e proximidades entre a rua e o museu, a vida e a arte, a política e a estética por meio de estratégias de improvisação, biodrama, teatro documentário e criação coletiva.
O grupo se apresentou em diversos espaços e festivais, como a 14a VERBO (2018), a 11a e 13a Bienal Sesc de Dança (2019 e 2021), a 6a Mostra Internacional de Teatro (2020), o Festival Panorama Jangada (2021), o Arte Passagem (2022) e o Festival Mamba Negra (2022). Participaram também das exposições Histórias de Dança (Museu de Arte de São Paulo, 2020), Somos muit+s (Pinacoteca do Estado de São Paulo, 2021), Começo de século (Galeria Jaqueline Martins, 2021). Em 2023, MEXA estreou o espetáculo Poperópera Transatlântica em Berlim (Hau Theatre), que foi também apresentado no Kunstenfestivaldesart (em Bruxelas), Lisboa (Teatro do Bairro Alto), Hamburgo (Kampnagel) e Leeds (Transform Festival). Em 2019, Mexa recebeu o Prémio Denilto Gomes de Dança na categoria “visões da estética negra e de género”. Desde 2016, o MEXA é um grupo residente da Casa do Povo.
Noara Quintana
(Florianópolis (SC), 1986)
Noara Quintana é artista visual, vive e atua entre Florianópolis, SC, e Los Angeles, EUA. Sua pesquisa concentra-se na materialidade de objetos cotidianos e nos índices de histórias do Sul Global que carregam. Através de instalações e esculturas, seu trabalho aponta para trocas econômicas, formas arquitetônicas e narrativas contrárias ao legado de um imaginário colonial.
Participou de diversas exposições e residências, sendo em 2023 artista residente na Delfina Foundation pelo Instituto Inclusartiz, Londres, UK, “Lauréate 2020” do Institut Français na Cité Internationale des Arts, Paris, FR, e residente do Pivô Arte Pesquisa, São Paulo, SP, em 2021. E nos últimos anos integrou exposições como: Frestas – Trienal das Artes SESC “O rio é uma serpente”, Sorocaba, SP (2021); “For The Phoenix To Find Its Form In Us”, SAVVY Contemporary, Berlim, DE (2021); “Cultivo”, Galeria Marli Matsumoto, São Paulo, SP (2022); “From underwater mountains fire makes islands”, KADIST and PIVÔ, São Paulo, SP (2022); “The Children Have to Hear Another Story – Alanis Obomsawin”, Haus der Kulturen der Welt (HKW), Berlim, DE (2022), “Pays rêvé, pays reverse”, Cité Internationale des Arts, Paris, FR (2023), “Contra-Flecha: Arqueia mas não quebra”, Galeria Almeida & Dale, São Paulo (2023),“No Song Unsung” Brea Gallery, Los Angeles, EUA (2023), e de “Bubuia”, Bienal das Amazônias, Belém, PA (2023). Recentemente apresentou a exposição individual “Futuro Fóssil” no espaço Lanterna Mágica do Projeto Vênus, em São Paulo.
Paulo Nimer Pjota
(São José do Rio Preto (SP), 1988)
O trabalho de Paulo Nimer Pjota se desenvolve a partir da natureza de fenômenos originados coletivamente. Sua pesquisa e prática se concentram num estudo profundo sobre um tipo de iconografia popular que só pode se desenvolver por meio de processos complexos operados por incontáveis mãos. Podemos então pensar sua produção como a representação de um diálogo plural e agitado, cujos entendimentos estão sempre em transformação, percorrendo múltiplos fluxos de consciência.
O artista usa como suporte, em regra, grandes telas, sacos e chapas de metal. A maior parte desses materiais são encontrados em depósitos de dejetos para então passarem por processos de negociação e deslocamento. As peças escolhidas, naturalmente, chegam com as inscrições de outros tempos e usos, de maneira que criam um primeiro terreno — gráfico e espiritual — para o que irá ganhar forma nessas superfícies. A partir daí cria fábulas globais na tensão entre a liberdade da escolha aleatória e a precisão de uma meticulosa composição, conjugando representações numa constelação de corpos suspensos. É quando a história da arte vai lado a lado com cultura de massa; cânones universais com banalidades cotidianas; símbolos universais com temas regionais.
Seu interesse é, sobretudo, pelos mecanismos e processos que produzem, editam e difundem manifestações humanas numa época de internet e ultra comunicação. Por meio de ritmo, rima e repetição vêm à tona imagens que indexam as percepções comuns de um planeta globalizado e que, consequentemente, expõem suas profundas desigualdades. Com efeito, torna-se possível questionar a forma como formulamos informação e distribuímos nossos afetos, reconfigurando nossas sensibilidades para com o que nos cerca e promovendo possibilidades de interação social antes impensáveis.
Paulo Pires de Oliveira
(Poxoréo (MT), 1972)
Paulo Pires de Oliveira é natural de Poxoréo, Mato Grosso, Brasil, 1972. Escultor, desenhistas e pintor, reside em Rondonópolis, também em Mato Grosso, desde 1990. De família humilde, o escultor, aos oito anos de idade iniciou de maneira lúdica e autodidata a confecção de brinquedos em madeira, e aos 14 anos começou a esculpir e comercializar pequenas peças de madeira. “Morei em Rondônia na região de Rolim de Moura de 08 a 17 anos, foram nove anos e ainda criança comecei a esculpir em madeira”.
Paulo Pires produz trabalhos em pedras de arenito colhidas nos vales dos municípios de Rondonópolis, Pedra Preta e região, de onde traz a duríssima pedra-ferro. As cores do arenito variam entre o marrom avermelhado, vermelho-amarelado e branco, sendo a pedra-ferro mais escura. Desenvolveu uma técnica própria, na qual o arenito é milimetricamente esculpido.
Ao longo de sua trajetória, Paulo Pires expôs individualmente suas obras em séries temáticas: Desejos, Alma, Idade, Amor e Sociedade de Pedra. São obras densas, cheias de movimentação e volumes das formas arredondadas que revelam sensações barrocas. Figuras que se enroscam, eróticas, evocativas, pequenos fragmentos de templos que nos remetem a memória ancestral arcaica.
“Eu considero uma necessidade ter chegado à Pedra. Acontece que em Mato Grosso muitos escultores trabalham com madeira e eu estava me achando muito repetitivo e falei pra mim mesmo: tenho que sair disso, preciso criar outras coisas. Como gosto muito de escrever fui dar umas andadas no mato e nessas andadas encontrei uma bela cachoeira que fica perto de Cuiabá no Distrito de Nossa Senhora Guia e então resolvi que ali seria um ótimo reduto para minhas escritas e lá tem muita pedra e comecei a ter contato com lindas pedras e comecei a esculpir, fiquei um ano esculpindo.”
Rafael RG
(Guarulhos (SP), 1986)
Rafael RG (1986) Vive e trabalha entre Guarulhos (SP), São Luís do Maranhão (MA) Recife (PE). É formado em Artes Visuais pela Belas Artes de São Paulo. (Bolsista PROUNI – 2010). Participou de mostras e festivais em cidades do Brasil e em outros países. Recebeu, entre outras premiações, o 1º Prêmio Foco ArtRio, o Prêmio Honra ao Mérito Arte e Patrimônio/ IPHAN, o Prêmio aquisição do Centro Cultural São Paulo, Bolsa Iberê Camargo para residência no Künstlerhaus Bremen (Alemanha), Bolsa Pampulha para residência no Museu de Arte da Pampulha (MG), entre suas residências recentes estão Gasworks em Londres (2018) Black Rock Senegal em Dakar (2019), Triangle France – Astérides em Marseile (2020) e YBYTU (2021) e Residência artística da FAAP (2022) ambas em São Paulo, The 55 project, Miami (2022) e Palais do Tokyo em Paris (2023).
Em sua prática artística, RG costuma trazer duas fontes para construção de seus trabalhos: uma documental e outra afetiva, em geral por meio do uso de documentos garimpados em arquivos institucionais ou pessoais associados a narrativas que podem envolver sua pessoa ou um alter ego. A interação entre essas territorialidades resulta em obras que quase sempre se aproximam de uma ficção, ou de uma noção tensa de ficcionalidade. Relações afetivas e sexuais e suas implicações políticas, e questões de identidade racial têm sido suas áreas de interesse atuais. Essas pesquisas geralmente se desdobram em workshops, instalações, textos performativos, publicações e objetos.
Rebeca Carapiá
(Salvador (BA), 1988)
Rebeca Carapiá, artista visual, mestranda pela Universidade Federal da Bahia, nasceu na Cidade Baixa, em Salvador. A artista se interessa pelas relações produzidas entre a linguagem, o conflito, o corpo e o território, onde cria e organiza um conjunto de práticas e reflexões através de diferentes plataformas de exibição, formação e experimentação artística. Através de esculturas, cobre sobre tela, desenhos, instalações, gravuras, textos e objetos, sua pesquisa busca criar uma cosmologia em torno dos conflitos das normas da linguagem e do corpo, além de ampliar um debate geopolítico que envolve memória, racismo ambiental, economias da precariedade, tecnologias ancestrais, dissidências sexuais e de gênero e as relações de poder entre o discurso e a palavra.
Questionando sobre como falar da diferença sem explicá-la e performando a desconstrução das geografias do feminino, em 2020 abriu seus cadernos em sua primeira exposição individual,”Como colocar ar nas palavras”, que aconteceu na Galeria Leme, em São Paulo. A artista, que trabalha a escrita cotidiana como prática de criação, teve seus textos publicados em 2022 pela editora Francesa Brook em “Textes à lire à voix haute” e em 2023 o livro de artista “Dois meses de permanência” organizado pela residência Ybytu em São Paulo. Carapiá ainda, coordena o espaço independente e ateliê Irê Arte, praia e pesquisa, onde recebe artistas com diferentes interesses, voltado para o desenvolvimento de práticas, pesquisas e processos de formação em arte contemporânea.
Foto: Adriano Machado
Rop Cateh – Alma pintada em Terra de Encantaria dos Akroá Gamella
(Território Indígena Taquaritiua (MA))
Em colaboração com Gê Viana [Santa Luiza, MA, 1986] e Thiago Martins de Melo [São Luís, MA, 1981]
O termo Rop Cateh – Alma pintada em Terra de Encantaria dos Akroá Gamella, escolhido para representar a participação do território no 38º Panorama, reflete a essência do Ritual de Bilibeu. A apresentação envolveu uma série de conversas e processos com os membros do Conselho de sua comunidade e com o recém-formado Coletivo Pyhan — que tem se organizado como corpo de comunicação da comunidade —, e contou também com a colaboração de dois artistas maranhenses que já tinham laços com o território e cujas práticas em tudo se relacionam com as questões do Panorama: Gê Viana e Thiago Martins de Melo.
Sallisa Rosa
(Goiânia (GO),1986)
Sallisa Rosa é natural de Goiás – Brasil, atualmente está fazendo a residência artística na Rijksakademie em Amsterdam. Atua com a arte como caminho a partir de experiências intuitivas ligadas à ficção, ao território e à natureza. Além disso, debruça-se sobre a temática da memória e esquecimento e estratégias de criação de futuro.
A artista tem interesse especial na criação de instalações de grandes formatos em espaços públicos e institucionais. Sallisa trabalha com a terra em diversas materialidades, como plantio, barro e cerâmica, e também circula entre a fotografia e vídeo, performance e mais recentemente desenhos. Em sua trajetória, é central o comprometimento com práticas artísticas voltadas para construções coletivas, no sentido de desdobrar ações que culminam em partilhar saberes.
Solange Pessoa
(Ferros (MG), 1961)
Solange Pessoa é mineira, lugar alto do barroco colonial hoje uma força industrial ‘graças’ às suas atividades de extração de ferro. O mundo natural, parte central da sua prolífica obra, encontra-se tanto nos temas representados como no processo criativo, especialmente com materiais encontrados na quinta da sua família. A matéria orgânica (terra, musgo, couro, cera, penas, cabelos, sangue, gordura…) torna-se um meio cuja evolução natural transforma as obras que compõem – cheios de vida, crescem, e às vezes caem, morrendo ao ritmo do humano reinos animal e vegetal.
O seu trabalho sugere um colapso temporal, entre o presente e um passado distante, tendo em comum a libertação de energias primordiais. Para Solange Pessoa, cada fenômeno material tem uma forma de agenciamento, numa leitura animista do mundo. Suas esculturas em pedra-sabão evocam formas ancestrais (espirais, fósseis) ou interiores corpóreos (úteros, entranhas). Comunicam-se com a instalação monumental Catedral (1990-2003). Suspenso e ancorado no solo, evoca cavalos fantasmagóricos, memórias distantes da colonização.
Tropa do Guriloko
(Rio de Janeiro (RJ), 2023)
A turma de Gorilas GURILOUKO surgiu da iniciativa de um grupo de amigos de um sub-bairro local chamado Bairro Iracema localizado no bairro de Campo Grande Zona Oeste do Rio de Janeiro. Nosso lema é paz no Carnaval, nos fantasiamos para trazer alegria as crianças e realizar aquele sonho de sair fantasiado no Carnaval de rua. Temos apenas 2 anos de existência e iremos ano que vem para o terceiro e acreditando que dias melhores virão. Nossas fantasias são todas artesanais criadas pelo grupo através de fitas plásticas e trançadas nas roupas dando volume e magnitude a cada gorila. Toda criação é própria dando alusão a um Gorila de verdade.
Nosso primeiro gorila foi da cor preta e o segundo agora foi o amarelo em homenagem a um amigo que morreu de câncer no estômago e como seu último gorila que ele usou no carnaval foi amarelo, prestamos essa homenagem ao amigo de apelido Urso. Fizemos uma mistura de gorila com urso e ficou incrível. Nosso novo tema será em alusão ao Filme King Kong para o ano de 2025. Vem mais coisas boas por aí…
Zahỳ Tentehar
(Reserva indígena Cana Brava ( MA), 1989)
Zahy Tentehar é uma mulher indígena, multiartista, nascida na aldeia Colônia, na reserva indígena Cana Brava, no Maranhão. Filha da pajé Elzira, e de Seu Quinca, mestiço. Do povo Tenetehara-Guajajara, tem o Ze’eng eté, dialeto do tronco tupi-guarani, como sua primeira língua. Em 2010, mudou-se para o Rio de Janeiro, onde tornou-se atriz e ativista. Na cidade, ela foi uma das líderes da aldeia Maracanã, ocupada de 2006 a 2013 por indígenas que reivindicavam a revitalização e o reconhecimento histórico do prédio onde havia sido o Museu do Índio.
Na televisão, trabalhou na minissérie “Dois Irmãos”, da TV Globo; no cinema, participou do filme “Não devore meu coração” e, no teatro, atuou em “Macunaíma – Uma rapsódia musical”. Seu trabalho mais recente como atriz foi em “Guerra em Iperoig” (2020), da Companhia de Teatro Mundana. Hoje, está em processo como co-diretora em uma adaptação de “Macunaíma” para o cinema.
Foto: Divulgação TV Globo/Manoella Mello
Zimar
(Matinha, MA, Brasil, 1959)
Euzimar Meireles Gomes nasceu em Matinha, MA, Brasil (1959). Seu trabalho vem de sua ligação vital com o Bumba Meu Boi, importante manifestação cultural da Baixada Maranhense, onde vive e trabalha. Além de artista, Zimar é brincante do Boi e incorpora o personagem Cazumbá, figura misteriosa, travessa e imprevisível que veste ornamentos detalhados e máscaras – também chamadas de “caretas” ou “queixos”. Manejando diferentes materiais, como PVC, pó de serra, borracha, ossos, materiais recicláveis, capacetes e peças de bicicletas, Zimar começou a produzir suas próprias caretas no início dos anos 2000, buscando torná-las mais confortáveis para uso. Ao misturar formas humanas e animais, o artista renovou a tradição das caretas de Cazumbá, criando personagens fantásticos e expressivos. Participou do 38º Panorama da Arte Brasileira (2024–2025) e suas obras integram o acervo do MAM São Paulo, Museu Afro Brasil Emanoel Araujo e Museu de Arte Popular Casa do Pontal.
mídias assistivas
AD 01 – Apresentação da exposição e textos curatoriais
AD 02 – Edifício e pavimentos
AD 03 – Adriano Amaral
AD 04 – Advanio Lessa
Ad 05 – Ana Clara Tito
AD 06 – Antonio Tarsis
AD 07 – Davi Pontes
AD 08 – Dona Romana
AD 09 – Frederico Fillipi 01
AD 10 – Frederico Fillipi 02
AD 11 – Gabriel Massam
AD 12 – Ivan Campos
AD 13 – Jayme Fygura
AD 14 – Jonas Van e Juno B
AD 15 – Jose Adario dos Santos
AD 16 – Joseca Yanomami 01
AD 17 – Joseca Yanomami 02
AD 18 – Labo & Rafaela Kennedy
AD 19 – Laís Amaral 01
AD 20 – Laís Amaral 02
AD 21 – Lucas Arruda
AD 22 – Marcus Deusdedit
AD 23 – Maria Lira Marques
AD 24 – Marina Woisky
AD 25 – Marlene Almeida 01
AD 26 – Marlene Almeida 02
AD 27 – Mestre Nado
AD 28 – MEXA
AD 29 – Noara Quintana
AD 30 – Paulo Nimer Pjota
AD 31 – Paulo Pires
AD 32 – Rafael RG
AD 33 – Rebeca Carapiá
AD 34 – Rop Cateh
AD 35 – Sallisa Rosa
AD 36 – Solange Pessoa 01
AD 37 – Solange Pessoa 02
AD 38 – Tropa do Gurilouko
AD 39 – Zahỳ Tentehar
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serviço
38º Panorama da Arte Brasileira: Mil graus
Curadoria:
Germano Dushá, Thiago de Paula Souza
Curadoria-adjunta:
Ariana Nuala
Período expositivo:
05 de outubro de 2024 a 26 de janeiro de 2025
Local:
Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo (MAC USP), terceiro andar
Endereço:
Av. Pedro Álvares Cabral, 1301
Horários:
terça a domingo, das 10h às 21h
Ingressos:
entrada gratuita
Classificação indicativa:
10 anos
Durante o período emblemático do bicentenário de independência do Brasil, o Museu de Arte Moderna de São Paulo recebe a partir do dia 23 de julho o 37° Panorama da Arte Brasileira – Sob as cinzas, brasa, que propõe desconstruir paradigmas naturalizados em relação ao Brasil colônia. Em contraponto, neste ano, também é celebrado o centenário da Semana de Arte Moderna de 1922, marco para o modernismo brasileiro que trouxe um novo e amplo cenário cultural, com artistas de distintas regiões do país.
Com grupo curatorial diverso, composto por Claudinei Roberto da Silva, Vanessa Davidson, Cristiana Tejo e Cauê Alves, o 37° Panorama enfatiza as pesquisas que resultam em questionamentos e possíveis soluções artísticas surgidas do enfrentamento de um cenário onde a barbárie está manifestada de diversas formas. Ideais de civilização se atritam na busca da dimensão plural sobre as questões trazidas à tona a partir de obras que se relacionam tanto pela condição comum deste cenário quanto por uma diversidade de perspectivas, sendo seus autores de diferentes gerações e identidades étnico raciais e de gênero.
A mostra valoriza a dimensão pedagógica da arte e prospecta rupturas estruturais. Ainda em um mundo pandêmico, o Panorama propõe investigar como os artistas enraizados no Brasil têm enfrentado os múltiplos problemas causados pelo modelo de desenvolvimento adotado nos últimos séculos.
A curadoria se baseou em signos que interligam de maneira sutil à brasa, como símbolo de resistência e também de ambiguidade, trazendo uma diversidade de pontos de vista e pesquisas.
Sertão é palavra de origem desconhecida. Na língua portuguesa, há registros de sua existência desde o século XV. Quando aqui aportaram, os colonizadores já trouxeram consigo o termo, usando-o para designar o território vasto e interior, que não podia ser percebido da costa. Desde então, a esse vocábulo atribuem-se diversos sentidos, sem nunca ser fixado numa ideia pacificada. É constituído, inclusive, por oposições: pode referir-se à floresta e ao descampado, ao lugar deserto e também ao povoado, àquilo que é próximo e ermo. Qualifica o visível e o desconhecido, trata da aridez e da fertilidade, do inculto e do cultivado.
Ainda que tenha chegado ao Brasil na caravela, sertão não cessa de se insurgir contra o colonialismo e de escapar de seus desígnios. Mantém sua potência de invenção, não se rende aos monopólios dos saberes patriarcais, exige novos pactos sociais, desierarquiza sua relação com a natureza, reverencia o mistério, festeja. Sertão é, antes e depois de tudo, experimentação e resistência, qualidades fundamentais para viver a arte e que nos trazem a este 36º Panorama da Arte Brasileira.
No Brasil que pleiteava sua modernização, no início do século XX, sertão passou a referir-se, sobretudo, à região do Nordeste de clima semiárido, ilustrada por sua vegetação de caatinga, em oposição ao litoral. Nesse momento, reforça-se o projeto de um lugar seco, primitivo, rude, propagandeando um outro na iminência do flagelo. Forja-se, dessa maneira, uma condição de submissão que justificaria políticas assistencialistas, mas sobretudo a atualização de medidas de exploração. Suas imagens estão presentes por toda a cultura brasileira, ainda que nenhuma delas dê conta de tudo o que pode significar.
Contrariando determinismos, e sob a luz de uma certa produção de arte do Brasil, Sertão é modo de pensar e de agir. Termo evocativo, traz consigo afetos transformadores, formas políticas, ideais de criação, memórias de luta, rituais de cura, ficções de futuro. Esta arte-sertão que aqui se apresenta está no deslizar das linguagens. Mais que um lugar, essa condição sertão é a travessia. Espalha-se Brasil afora, está no manejo do roçado, supera-se na viela da favela, desce pelo leito do rio, está escrita nos muros da cidade e presente na terra retomada. Manifesta-se nos encontros e nos conflitos.
No 36º Panorama da Arte Brasileira, 29 artistas e coletivos reúnem-se para compartilhar estratégias de resistência e modelos de experimentação, a partir de suas histórias. Se sertão está no limite do que se pode apreender, por definição, a ideia de panorama é complementar na forma de sua contradição. A importância de juntar essas instâncias e acolher essas oposições, no entanto, se dá pela necessidade cada dia mais atual de defender existências não hegemônicas e de compartilhar outros modos de vida. Enquanto a arte puder afirmar sua condição sertão, vai ter sempre luta, vai haver sempre a diferença, vai existir sempre o novo.
Júlia Rebouças Curadora
50 anos de Panorama
O Panorama da Arte Brasileira teve sua primeira edição em 1969 e foi idealizado como forma de o museu recompor seu acervo e voltar a participar ativamente do circuito artístico contemporâneo. A princípio evento anual, o Panorama passou a ser realizado a cada dois anos a partir de 1995, contando até o momento 35 edições.
Parcerias
O 36º Panorama da Arte Brasileira: Sertão procurou ampliar seu tempo e espaço de atuação por meio de parcerias estratégicas: com a Festa Literária Internacional de Paraty, serão promovidas duas mesas de debate convidando um participante da Flip e um participante do Panorama, com a mediação de Júlia Rebouças e Fernanda Diamant, curadora da 17ª edição da Flip; com o Auditório Ibirapuera, vizinho do museu, foi organizada uma programação musical a partir dos conceitos trabalhados no Panorama para o dia 18/08, dia seguinte à abertura no MAM; e, com a Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, novos debates acontecerão em setembro e outubro, promovendo o encontro entre artistas, psicanalistas e o público.
Irmãos Campana na loja mam
O estúdio Campana, dos irmãos Fernando e Humberto Campana, que celebra em 2019 seus 35 anos de trabalho, ficará a cargo da curadoria da loja mam durante o período do Panorama, com o patrocínio do Iguatemi São Paulo. O trabalho dos Campana incorpora a ideia da transformação, reinvenção e integração entre o artesanato e a produção em massa, oferecendo um design com identidade própria, mixando a individualidade dos materiais à preciosidade das características comuns no cotidiano brasileiro, como as cores, as misturas, o caos criativo. A partir do olhar único dos irmãos Campana, que contam com um extenso trabalho de pesquisa da cultura vernacular nordestina presente em suas coleções, os visitantes poderão vivenciar um novo espaço da loja mam e encontrar peças cuidadosamente selecionadas que trabalham com o conceito expandido de sertão.
AMA: levando água potável ao semiárido brasileiro
Colocar o sertão em foco possibilitou que o 36º Panorama da Arte Brasileira firmasse parcerias com propósitos que vão muito além do simples apoio financeiro. Um dos patrocinadores, a Água AMA, água mineral da Cervejaria Ambev, tem 100% de seu lucro revertido para projetos de acesso à água potável no semiárido brasileiro. A mostra é uma oportunidade para que o público conheça um produto que, aos poucos, está ajudando a transformar a realidade de muitos brasileiros vivendo no semiárido – clima presente em regiões comumente associadas ao tradicional imaginário de sertão. Já são mais de 26 mil pessoas beneficiadas pelos projetos que AMA financia, em todos os nove estados que compõem o semiárido no Brasil. Este ano, a marca atingiu R$ 4 milhões de lucro, recurso integralmente revertido para iniciativas de acesso à água potável. Iniciativas como o patrocínio ao Panorama da Arte Brasileira permitirão um crescimento ainda maior desses números.
Apoio ao Panorama e ao público de fora de São Paulo
A agência de viagens Flytour, além de ter se tornado agência apoiadora do Panorama, habilitou para o MAM um portal em que os interessados em adquirir passagens e pacotes de hospedagem para viajar a São Paulo e conferir pessoalmente o 36º Panorama da Arte Brasileira: Sertão contarão com descontos especiais.
Da adversidade seguimos vivendo. Em 1967, Hélio Oiticica escreveu um texto determinante para se pensar a arte e o Brasil. Intitulado “Esquema Geral da Nova Objetividade”, há nele um desenho panorâmico da cena artística àquela altura e dos desafios a serem enfrentados. Escrito em um momento politicamente tenso, com desalentadoras perspectivas de futuro, para dizer o mínimo, ele destaca seis características da arte brasileira: (1) vontade construtiva; (2) tendência para o objeto; (3) participação do espectador (corporal, tátil, semântica); (4) abordagem e tomada de posição em relação a problemas políticos, sociais e éticos; (5) tendência para proposições coletivas; (6) ressurgimento e novas formulações do conceito de antiarte.
Uma pergunta, ainda atual, perpassava a escrita do Esquema Geral: como apostar em uma relação nova entre singularidade local e inserção global. No caso da cultura brasileira – e isso foi colocado de modo muito original pela geração tropicalista sob a influência da Antropofagia – nossa singularidade foi sendo construída pela mistura de diferentes matrizes culturais. Ou seja, não temos uma essência própria, uma marca de origem a ser depurada de qualquer contaminação indesejada, vivemos da apropriação constante do outro, somos uma colagem de influências que não para de se transformar. Como escreveu Oiticica, estamos sempre “à procura de uma caracterização cultural, no que nos diferenciamos do europeu com seu peso cultural milenar e do americano do norte com suas solicitações superprodutivas”.
As seis características apontadas acima seguem valendo – não obstante as diferenças de contexto – para se pensar a arte produzida hoje. Buscamos evidenciar isso neste Panorama. Sem qualquer tematização daquelas tendências, elas perpassam indiretamente os trabalhos aqui apresentados. A despeito da falência da ideia de progresso e de uma avassaladora crise urbana e ambiental, ainda resiste uma vontade construtiva entre nós. Uma construção que se sabe frágil, mas crucial para enfrentar os riscos de uma informalidade desagregadora. Nota-se também uma crescente abertura do fazer artístico para problemas sociais, éticos e políticos, ou seja, para um engajamento, nada simplificador, que acredita nas brechas em que a arte quer se infiltrar para tentar mudar as coisas – sabendo-se que querer mudar não basta e que sua impotência pode ter desdobramentos imprevistos.
Reunir em uma exposição, que se pretende um Panorama da Arte Brasileira, desde a concretude da intervenção arquitetônica até a fluidez da dança, passando pelo audiovisual, pela escultura, pela fotografia e pela palavra, mais que explicitar a diversidade da cena contemporânea, em que a divisão de meios expressivos e de disciplinas parece obsoleta, busca ressaltar a multiplicidade de tempos que compõem nosso momento histórico. O tempo do corpo que dança, da palavra escrita e da imagem projetada respondem a formas de percepção e de experiência plurais. Simultaneamente, é parte de nosso desafio articular os diferentes imaginários que se contaminam e se multiplicam no Brasil entre a cidade e a floresta, as comunidades periféricas e os centros cosmopolitas, entre o caos, a indeterminação e o mito.
Misturar poéticas conflitantes, trazer outras vozes e gestos para dentro das instituições que constroem as narrativas hegemônicas, revelar antagonismos e diferenças, tudo isso é parte de uma ideia de Panorama e de uma discussão sobre o Brasil. Isso, no exato momento em que o Brasil vive uma de suas piores crises de identidade, quando a promessa de futuro virou uma terrível distopia que constrange as possibilidades do presente, parece propício colocar, mais uma vez, a pergunta sobre o Brasil. O Problema-Brasil é um desafio e uma miragem: aparece como promessa de alegria, mas escapa quando vamos em sua direção. E, a cada passo, parece que vai para mais longe. Entretanto, não dá para virar as costas; há que se encarar a miragem, ao mesmo tempo ilusória e real, fazendo deste enfrentamento o caminho para nos tornarmos menos assombrados com nossa assustadora incompetência coletiva. A arte é o espaço disponível para ampliarmos o campo do possível.
Luiz Camillo Osorio Curador
artistas: Bárbara Wagner e Benjamin de Burca | Beto Shwafaty | Cadu | Dora Longo Bahia | Fernanda Gomes | João Modé | Jorge Mario Jáuregui | José Rufino | Karim Aïnouz e Marcelo Gomes | Leandro Nerefuh | Lourival Cuquinha e Clarisse Hoffmann | MAHKU (Movimento dos Artistas Huni Kuin) | Mão na Lata | Marcelo Evelin / Demolition Incorporada | Marcelo Silveira | Ricardo Basbaum | Romy Pocztaruk | Rua Arquitetos e MAS Urban Design, ETH Zurich | Wagner Schwartz
Como dialogar sobre o Panorama da Arte Brasileira de hoje e ontem sem cair, mais uma vez, nos mesmos impasses, nas mesmas relativizações? Como, por outro lado, enfatizar os dias de hoje sem ignorar a parcela da arte que se esfacela pelas urgências de um mundo entregue ao consumo e ao espetáculo imediato? Esta exposição oferece a tais perguntas um novo conjunto de enigmas sobre os quais podemos refletir. E discutir. Ela possui uma dupla missão: primeiro, destacar uma parcela da história brasileira pouco conhecida tanto pelo grande público quanto por artistas e pesquisadores: uma seleção significativa de esculturas em pedra polida, primeiras manifestações tridimensionais de que se tem notícia, produzidas aproximadamente entre 4000 e 1000 a.C., encontradas em território que se estende no que hoje é o sudeste meridional do Brasil até a costa do Uruguai. Depois, apresentar um diálogo/provocação, na medida em que essas peças podem motivar as obras produzidas por artistas contemporâneos convidados a contrapor-se a esse imaginário, de acordo com suas próprias personalidades, pesquisas e meios.
Em meio ao universo caótico de nossa realidade, à parte a violenta história de dominações e colonialismos que vivenciamos, emergem essas poderosas pequenas esculturas cujos sentidos originais se perderam, assim como os povos que as produziram: os chamados povos sambaquieiros, que habitaram a costa de uma parte do território em que hoje vivemos – de uma forma que adivinhamos ter sido mais harmoniosa e perene que a atual. Deixaram como vestígios inúmeros sambaquis (nomeação de origem tupi que significa literalmente “monte de conchas”) que marcam a paisagem e guardam, sob as areias, fragmentos e matérias acumulados ao longo de milhares de anos. Deixaram também essas esculturas, que os arqueólogos interpretam como elementos de alguma sorte de rituais e que nos assombram pela síntese formal, pela inventividade dos volumes e pela beleza simples que aprendemos a enxergar com a arte dos princípios do século XX e também com as curvas abauladas da natureza (o ovo, o seixo rolado, a duna de areia, o ventre grávido).
Tais “brasileiros de antes do Brasil” merecem estar em nossa história da cultura e da arte, seja por sua flagrante atenção pela natureza e pelo que os rodeava, seja pela qualidade única e enigmática de suas esculturas. É neste mistério profundamente enraizado na terra e no território que este Panorama vai se envolver. É isso que compartilhamos com os convidados Berna Reale, Cao Guimarães, Cildo Meireles, Erika Verzutti, Miguel Rio Branco e Pitágoras Lopes – artistas de gerações diferentes, vindos de regiões várias e identificados com pesquisas artísticas contrastantes entre si, que foram instados a produzir novos trabalhos que refletissem o Brasil de hoje, quiçá inspirados no de ontem, no que ele tem de inapreensível enquanto conceito, assim como telúrico enquanto presença.
Trata-se de proposições artísticas fortes, pregnantes, dissonantes até. Cada artista constrói uma ambiência com suas obras, sejam elas vídeos, esculturas, fotos, pinturas, instalações ou projetos. Paralelamente, as esculturas pré-históricas apresentam-se com doses igualmente surpreendentes de coesão e variedade. Tempos e espaços chocam-se, enquanto especificidades locais, e tendências globalizantes se confundem. É um enigma de origens e, ao mesmo tempo, de impacto perante o estado da visualidade de nossos dias. Mas, por que não também uma outra forma de ver o panorama da arte brasileira?
Aracy Amaral Curadora
Paulo Miyada Curador adjunto
prof. André Prous Consultoria especial
Artistas: Berna Reale | Cao Guimarães | Cildo Meireles | Erika Verzutti | Miguel Rio Branco | Pitágoras Lopes
Este polêmico Panorama da Arte Brasileira organizado com artistas estrangeiros atesta a importância da cultura brasileira para um número significativo de artistas não brasileiros. O fenômeno está relacionado ao crescente reconhecimento internacional da arte de Lygia Clark, Hélio Oiticica e Lygia Pape, da arquitetura de Lina Bo Bardi, Oscar Niemeyer e Paulo Mendes da Rocha, da bossa nova ou da tropicália. Se com a antropofagia, celebrada por Oswald de Andrade no “Manifesto antropófago” de 1928, nosso intelectual moderno apropriava-se da cultura europeia para digeri-la e produzir algo próprio, agora é a própria cultura brasileira que é canibalizada pelo estrangeiro.
A exposição reúne obras brasileiras de artistas estrangeiros – arte brasileira é aqui compreendida como aquela que estabelece fortes referências a conteúdos brasileiros. Um segundo grupo de artistas foi convidado a realizar residências em São Paulo, numa parceira com a Fundação Armando Álvares Penteado, para que tivessem a oportunidade de estabelecer uma relação com a cultura brasileira. Oito artistas residentes passam por São Paulo não para realizarem uma obra para o Panorama, mas para iniciarem uma história por aqui. O resultado é uma mostra composta por obras brasileiras feitas por estrangeiros nem tanto com elementos exóticos, mas por meio de uma forte presença da abstração geométrica, na qual a grade é muitas vezes subvertida por elementos orgânicos, sinalizando um legado do neoconcretismo.
O título Mamõyguara opá mamõ pupé é emprestado de uma obra do coletivo de artistas Claire Fontaine, baseado em Paris. Trata-se da tradução para o tupi antigo da expressão foreigners everywhere, e é parte de uma série de esculturas em neon apresentada em diferentes línguas. Num Panorama que desde o anúncio de seu projeto acendeu discussões sobre nacionalismo, territorialidade e xenofobia no campo da prática artística, a expressão numa língua nativa, que em realidade poucos cidadãos brasileiros compreendem, pode soar amarga: estrangeiros em todo lugar.
Adriano Pedrosa Curador
Artistas: Adrián Villar Rojas | Alessandro Balteo Yazbeck (com Eugenio Espinoza) | Armando Andrade Tudela | Carlos Garaicoa | Cerith Wyn Evans | Claire Fontaine | Damián Ortega | Dominique Gonzalez-Foerster | Franz Ackermann | Gabriel Sierra | Jennifer Allora & Guillermo Calzadilla | Jorge Macchi | Jorge Pedro Núñez | José Dávila | Juan Araujo | Juan Pérez Agirregoikoa | Julião Sarmento | Luisa Lambri | Marjetica Potrc | Mateo López | Mauricio Lupini | Nicolás Guagnini (com Carla Zaccagnini) | Nicolás Robbio | Pablo Siquier | Valdirlei Dias Nunes | Pedro Reyes | Runo Lagomarsino | Sandra Gamarra | Sean Snyder | Simon Evans | Superflex | Tamar Guimarães | Tove Storch
Capa do catálogo da exposição Panorama dos Panoramas (2008)
O Panorama da Arte Brasileira é hoje uma das exposições mais tradicionais do país. Sua primeira edição aconteceu em 1969, por ocasião da reinauguração do MAM. Depois de ter permanecido fechado por cerca de sete anos, quando seu acervo foi transferido para a Universidade de São Paulo, o museu criou com esta mostra a possibilidade de formar um novo acervo por meio de premiações e doações dos artistas que participaram de suas edições.
Ao serem apresentados cerca de cem trabalhos que entraram para a coleção do MAM graças ao Panorama, percebe-se o quanto os critérios eram pontuais em suas épocas, evidenciando as transformações dos instrumentos analíticos da história da arte nas últimas quatro décadas. O que era considerado uma grande obra em 1969, hoje não tem o seu valor devidamente reconhecido.
Muitos dos trabalhos expostos estão sendo apresentados pela primeira vez depois que entraram para a coleção. Pode-se especular sobre os possíveis motivos de alguns trabalhos estarem relegados a permanecerem guardados. O espaço físico do museu não permite uma exposição permanente do acervo, por exemplo. Ou talvez falte conexão entre um trabalho específico e a política de formação do acervo que compõem a coleção atual.
Neste sentindo, a exposição poderia se tornar um instrumento para colocar lado a lado nomes desconhecidos na atualidade e consagrados pela mesma história da arte. História que, distante da grande maioria do público, não se abre verdadeiramente para uma compreensão de seus critérios de inclusão e exclusão do que se considera arte ou não, de quais trabalhos são bons ou ruins e se são representativos ou não de uma época.
RICARDO RESENDE Curador
Artistas: Rubens Mano | Alex Cerveny | Eliane Prolik | Paulo Brusky | Rochelle Costi | Tomie Ohtake | Jac Leirner | Nelson Leirner | Rosana Paulino | Alfredo Volpi | Mauro Restiffe | Tunga | Paulo Buennoz | Oudi Maia Rosa | Wanda Pimentel | Amilcar de Castro | Maria Bonomi | Abraham Palatnik | Alcindo Moreira Filho | Anna Letycia Quadros | Arcângelo Ianelli | Arlindo Daibert | Arnaldo Battaglini | Arthur Luiz Piza | Ascânio MMM | Avatar Moraes | Caetano de Almeida | Cao Guimarães | Carlos Fajardo | Carlos Wladimirsky | Chico Amaral | Cleber Gouveia | Danúbio Gonçalves | Dudi Maia Rosa | Edgard de Souza | Emanoel Araújo | Ernesto Neto | Ester Grinspum | Fernando Velloso | Gilvan Samico | Hermelindo Fiaminghi | Flávio Shiró | Hisao Ohara | Franklin Cassaro | Iran do Espírito Santo | Franz Weissmann | Genilson Soares | Ivald Granato | Joaquim Tenreiro | José Alberto Nemer | José Resende | Juarez Magno | João Loureiro | Lídia Sano | Ada Yamagishi | Luiz Paulo Baravelli | Maria Tomaselli | Marcello Grassmann | Mário Cravo Neto | Marcello Nitsche | Marlene Hori | Nazareth Pacheco | Mary Vieira | Mauro Fuke | Nicolas Vlavianos | Paulatrope | Milton Machado | Paulo Lima Buennoz | Renina Katz | Paulo Pasta | Roberto Bethônico | Pazé | Rodrigo Andrade | Sérgio Sister | Takashi Fukushima | Rubem Valentim | Tomoshige Kusuno | Sérgio Porto | Tuneu | Valquíria Chiarion | Vera Chaves Barcellos | Wilma Martins | Wilson Will Alves | Yiftah Peled | Yutaka Toyota
Seis anos depois de o fundador do MAM São Paulo Ciccillo Matarazzo transferir todas as obras da coleção para a Universidade de São Paulo, o museu inventa o Panorama da Arte Brasileira com o intuito de formar um novo acervo.
De 1969 para cá, o Panorama superou sua missão inicial. Esse acervo (cerca de 5.400 obras) cresceu a tal ponto que o MAM não consegue lhe dar visibilidade permanente por causa das limitações do pavilhão onde está instalado abaixo da marquise projetada por Oscar Niemeyer.
O tema desta edição toma como ponto de partida a falta de uma sede construída especificamente para abrigar o MAM São Paulo e convida, além de artistas, arquitetos a pensar onde poderia ficar esse edifício (dentro ou fora do parque) e qual seria a vocação desse programa.
O título do Panorama, Formas únicas da continuidade no espaço, foi tomado emprestado da escultura do artista futurista Umberto Boccioni, cuja peça já pertenceu ao museu, e que completa cem anos. Hoje no MAC USP, esta obra ressalta o caráter especulativo da presente mostra.
Junto com documentos históricos que elucidam a trajetória do MAM, como os referentes à exposição Bahia no Ibirapuera (1959) de Lina Bo Bardi e Martim Gonçalves, o Panorama destaca outros contextos de modernidade no Brasil (Rio de Janeiro, Bahia, Pernambuco, Belo Horizonte e Brasília) e no mundo.
O desenho expográfico recupera o acesso ao museu situado em frente ao edifício da Bienal, assim como as cores da porta e das paredes, e elimina a presença de painéis perpendiculares que dividem o espaço em pequenas salas.
A realidade agora é outra, como apontam os projetos dos escritórios de arquitetura: se o IV Centenário de São Paulo ganhou o parque Ibirapuera em 1954, como imaginar um presente adequado ao espírito de um V Centenário?
Lisette Lagnado curadora
Ana Maria Maia curadora-adjunta
Artistas: Amanda Melo | Bárbara Wagner | Benjamin de Búrca | Clara Ianni | Daniel Steegmann | Dominique Gonzalez-Foerster | Federico Herrero | Fernanda Gomes | Montez Magno | Vítor Cesar | Vivian Caccuri | Yuri Firmeza | Cabelo | Ester Grinspum | Jorge Menna Barreto | Lucia Koch | Luiz Braga | Mônica Nador | Pedro Motta
Mais que uma exposição, o 32o Panorama é uma plataforma de discussão e decantação de processos artísticos. Trata-se de uma reflexão sobre o estado da arte contemporânea que pressupõe, especialmente na última década, um tempo cada vez mais acelerado. A consolidação de programas institucionais, desde a elaboração das leis de incentivo à cultura, a multiplicação de editais, projetos de residências nacionais e internacionais, além de um superaquecimento do mercado, interferiram e conviveram com transformações no fazer artístico.
Itinerários, itinerâncias aborda duas temporalidades: a resposta rápida, imediata a um percurso, e a decantação de processos a longo prazo, como residências, convivência em grupos, formação de redes. A exposição é uma das instâncias em que essa pausa se dá. Entre as propostas do Panorama 2011 está o convite para alguns artistas trabalharem em conjunto com o Educativo do MAM, visando discutir o papel do trabalho pedagógico em museus. Os educadores não são apenas prestadores de serviço e fornecedores de conteúdo para o público, mas agentes fundamentais na reflexão sobre os trânsitos entre os vários papéis que as pessoas assumem – artista, curador, visitante, educador – e do modo como a arte, ela mesma, possui um papel formador. Os artistas entram no papel de educadores e o Educativo no espaço da exposição.
Algumas questões centrais orientaram a pesquisa: Quando a itinerância entre os papéis de educador e de artista decanta experiências relevantes? Quando a itinerância decanta resíduos, restos, sobras e percursos? Quando a itinerância decanta tramas, redes, circuitos e colaborações? Quando a itinerância decanta trabalhos de arte e fatos estéticos? Em que medida a facilitação do deslocamento indiretamente proporciona uma homogeneização da produção contemporânea? Em que sentido o fluxo contínuo dilui algumas especificidades e identidades locais na arte contemporânea? A especificidade das artes visuais se desfaz na medida em que o artista contemporâneo viaja constantemente, trabalha com toda e qualquer matéria, tema ou ideia, assim como dialoga com o cinema, o som ou a literatura?
Em vista dessas questões, a curadoria investigou as noções de permanência e movimento na arte, bem como intensidades de tempo nas ações artísticas e posturas diante da urgência de se estar sempre em deslocamento. Mapear algumas noções de circulação e deslocamento na prática artística, do corpo dos artistas e do pensamento nos permite uma visão ampla da multiplicidade da arte no Brasil.
Cauê Alves e Cristina Tejo curadores
Artistas: Alberto Bitar | Amanda Melo | André Severo e Maria Helena Bernardes | Ateliê Aberto | Breno Silva e Louise Ganz | Bruno Faria | Cadu | Capacete | Chiara Banfi e Kassin | Cildo Meireles | Detanico Lain | Ducha | Gaio Matos | GIA (Grupo de Interferência Ambiental) | Héctor Zamora | Jailton Moreira | Jarbas Lopes | Jonathas de Andrade | Jorge Menna Barreto | Letícia Cardoso | Lourival Cuquinha | Lúcia Laguna | Marcelo Coutinho | Marco Paulo Rolla | Nicolás Robbio | Oriana Duarte | Pablo Lobato | Paula Sampaio | Pedro Motta | Raphael Grisey | Raquel Garbelotti | Ricardo Basbaum | Rodrigo Bivar | Rodrigo Matheus | Romano | Sara Ramo | Virginia de Medeiros | Wagner Malta Tavares