A exposição Mire Veja: MAM São Paulo visita o Sesc Bom Retiro nasce do encontro entre obras do Museu de Arte Moderna de São Paulo e do Acervo Sesc de Arte Brasileira a partir de uma pergunta desafiadora: como tornar a arte uma experiência pública? Ao deslocar trabalhos de um museu para o cotidiano de uma instituição cultural múltipla como o Sesc, a mostra partilha produções de arte contemporânea, estruturas de mediação que sustentam as exposições e modos de organizar, cuidar, narrar e tornar visível um conjunto de escolhas. A cada mudança de contexto, as obras dessas coleções criam novas relações e evidenciam que, para qualquer pessoa, perceber a arte é também fruto de vivências e decisões institucionais e de formas de mediação, que nos levam a perguntas como: quem define o que e como mostrar? Quando e a partir de onde somos chamados para conversar com as produções e sobre elas?
O convite aos visitantes da mostra passa por dois questionamentos enfrentados diariamente nas salas de trabalho de instituições culturais: O que acontece quando se decide guardar e tornar público um conjunto de obras? O que há para perceber e conhecer em uma obra de arte que pode tornar essa experiência transformadora, do ponto de vista individual? O primeiro nos aproxima das instituições e de seus processos. O segundo nos aproxima da fruição direta das obras, num caráter subjetivo.
Nesse sentido, em Mire Veja parte-se da ideia de que, se todo acervo organiza visões de mundo, as exposições tratam de modos de organizar relações intencionais e autorais. Nos processos de mediação cultural instaurados na realização de uma mostra, a curadoria e a educação, em parceria com a comunicação, constroem um pensamento no espaço e nos meios, colocando em diálogo obras, instituições e públicos convocados. O que se expõe de fato vai sempre além dos objetos artísticos; são também as narrativas e fabulações, os discursos e dispositivos que os acompanham, sejam textos, áudios, materiais educativos, os próprios percursos e as conversas entre educadores e visitantes na exposição.
Diante de uma obra, percebe-se sua materialidade, suas superfícies, volumes, cores e sons. Nela reconhecemos o resultado de escolhas técnicas e processos específicos de criação e construção narrativa; ela mostra, expressa, representa, simboliza, argumenta, não necessariamente nessa ordem e nem sempre sustentando todos esses gestos sensíveis. Ao mesmo tempo, cada trabalho integra uma investigação estética e conceitual, inserida em contextos históricos e culturais. Conhecer uma obra é acessar essas camadas e reconhecer que nenhuma delas a esgota, pois há sempre algo que permanece aberto às interpretações, às memórias, aos afetos e aos estranhamentos que emergem no encontro. A obra de arte se constrói como experiência, e perceber é uma forma de conhecer para também imaginar, pensar, projetar e realizar.
Mire Veja se apresenta como um campo de relações que começa no acolhimento de quem chega da rua, passa por variados modos de deslocamento no primeiro piso e, no segundo, mergulha em processos de criação, percepção e mediação cultural para, por fim, chegar à possibilidade de fazer e desfazer sentidos. Entre guardar e mostrar, entre mirar e ver, entre escolher e se relacionar. É nesse intervalo que a exposição acontece.
Mirela Estelles e Valquíria Prates
mantenedores do MAM São Paulo